Postagens populares

Powered By Blogger

sexta-feira, dezembro 16

Mateus/Capítulo 5 (Sermao do Monte)

Mateus/Capítulo 5

1Quando Jesus viu as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os seus discipulos se aproximaram, 2e ele começou a ensiná-los, dizendo[1]:
3- Felizes[2] os que se reconhecem pobres de espiritualidade [3], pois deles será o reino dos céus.
4- Felizes os que choram[4], pois serão consolados.
5- Felizes os mansos[5] pois herdarão a terra[6].
6- Felizes os que tem fome e sede de justiça, pois ficarão satisfeitos.
7- Felizes os misericordiosos, pois alcançarão a misericórdia.
8- Felizes os de coração puro, pois verão a Deus.[7]
9- Felizes os que trabalham pela paz[8], pois serão chamados filhos de Deus
10- Felizes os perseguidos por agirem corretamente, pois deles é o reino dos céus.
11- Felizes serão vocês, quando por minha causa, as pessoas deixarem de andar em sua companhia, os insultarem e os perseguirem dizendo todo tipo de mentira contra vocês. 12Fiquem felizes, fiquem muito felizes pois há uma grande recompensa no céus para vocês, pois assim foram perseguidos os profetas que viveram antes de vocês.

Índice
•    O sal da terra, a luz do mundo
•    O cumprimento da Lei
•    Sobre o ódio
•    Sobre a fidelidade
•    Sobre a honestidade
•    Sobre a resistência pacífica
•    Sobre o amor a todos
o    Notas

O sal da terra, a luz do mundo

13- Vocês são o sal[9]da terra, mas se o sal perde o gosto como lhe restaurar o sabor? Só serve para ser jogado fora e pisado pelas pessoas.
14- Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construida sobre um monte. 15Ninguém acende uma lamparina para colocá-la embaixo da mesa. Pelo contrário, ela é colocada no lugar próprio que ilumine todos os que estão na casa. 16Assim que também a luz de vocês brilhe diante das pessoas, para que elas vejam as coisas boas que vocês fazem e louvem o Pai de vocês, que está nos céus.
O cumprimento da Lei
17- Não pensem que eu vim abolir com a [[w:613_mandamentos| Lei e os oráculos dos profetas. Não vim para invalidá-la, mas sim aperfeiçoá-la[10]. 18Eu afirmo a verdade a vocês: até que o céu e a terra passem nem uma letra ou acento será tirado da Lei, até que tudo se aperfeiçoe.[11] 19Assim aquele que desobedecer ao menor mandamento e ensinar os outros a fazerem o mesmo será considerado o menor no Reino dos Céus, mas aquele que obedecer e ensinar esse será chamado grande no Reino dos Céus. 20Eu lhes digo, se vocês não forem muito mais justos[12] do que os escribas e os fariseus, jamais entrarão no Reino dos Céus.

Sobre o ódio

21- Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: "Não assassinará. Quem matar será julgado." 22Mas eu lhes digo que qualquer um que ficar com raiva do seu irmão será julgado. Quem insultar seu irmão será julgado pelo tribunal. E mesmo quem chamar outro de "Tolo"[13] estará em perigo de ir para o inferno ardente 23Portanto se você estiver oferecendo no altar a sua oferta e lembrar que o seu irmão tem alguma queixa contra você, 24deixe a sua oferta na frente do altar e vá primeiro se reconciliar com teu irmão, só então volte e faça sua oferta. 25Entre em acordo sem demora com seu adversário enquanto está com ele, para que o seu inimigo não o entregue ao juiz, o juiz ao carcereiro, e você seja jogado na prisão. 26Eu afirmo a você que isto é verdade: você não sairá dali até pagar o último centavo.[14]

Sobre a fidelidade

27- Vocês ouviram o que foi dito: "Não cometerá adultério." 28Mas eu lhes digo, quem olhar para uma mulher e desejar possuí-la já traiu no seu coração. A idéia é que não devemos simplesmente evitar as coisas más, mas também tudo o que pode nos conduzir a estas coisas. 29- Se o seu olho direito faz com que você peque, arranque-o[15] e jogue-o fora. Pois é melhor perder uma parte do corpo do que o corpo inteiro ser atirado no inferno. 30E se sua mão direita faz com que você peque, corte-a e jogue-a fora. Pois é melhor perder uma parte do corpo do que o corpo inteiro ser atirado no inferno.
31- Foi dito também: "Quem mandar sua mulher embora deverá dar a ela um documento de divórcio." 32Mas eu lhes digo: todo homem que mandar sua mulher embora, a não ser em caso de fornicação, será culpado de fazer com que ela se torne adúltera, se ela casar de novo. E o homem que casar com ela também cometerá adultério.

Sobre a honestidade

33- Vocês também ouviram o que foi dito aos seus antepassados: "Não quebrará a promessa, mas cumprirá exatamente o que jurou ao Senhor que ia fazer." 34Mas eu lhes digo: não jurem de jeito nenhum[16], nem pelo céu, pois é o trono de Deus, 35nem pela terra, pois é onde ele descansa os pés, nem por Jerusalém, pois é a cidade do grande Rei. 36Não jurem nem mesmo pela sua própria cabeça, pois vocês não podem fazer com que nem um só fio de cabelo fique branco ou preto. 37Seja porém, na tua palavra, Sim, sim; não, não. O que passar disso vem do maligno.

Sobre a resistência pacífica

38- Vocês ouviram o que foi dito: "Olho por olho, dente por dente."[17] 39Mas eu lhes digo; não combatam[18] aos que fazem mal a vocês. Se alguém lhe der um tapa na cara, vire o outro lado para ele bater também. 40Se alguém tomar sua túnica, deixe que leve também a capa. 41E se qualquer um forçá-lo[19] a andar por mil passos, carregue por outros dois mil. 42Se alguém lhe pedir alguma coisa, dê, e, se alguém lhe pedir emprestado, empreste.

Sobre o amor a todos

43- Vocês ouviram o que foi dito: "Amarás o seu próximo e odiarás o seu inimigo."[20] 44Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e pelos que os perseguem, 45para que sejam filhos do Pai de vocês que está no céus; ele faz nascer o sol sobre os maus e bons e vir a chuva sobre os justos e injustos. 46Porque se vocês amarem quem os ama, que mérito terão? Não fazem os cobradores de impostos isso também? 47E se vocês desejarem o bem somente aos seus irmãos, que tem isso de especial? Não fazem os gentios o mesmo? Sejam perfeitos[21], como perfeito é o Pai celeste de vocês.

Notas

1.    ↑ Aqui começa a o conhecido Sermão da Montanha que se extende até Mt 7,22 no qual Jesus apresenta a essência da ética cristã. Fala como verdadeiro legislador, "como quem tem autoridade", e não como simples intérprete das leis.
2.    ↑ Makários, traduzido aqui por felizes, ou bem-aventurados significa muito mais do que um simples estado emocional. É o termo usado para descrever o estado de pessoas muito felizes, pessoas benditas, pessoas abençoadas, pessoas que possuem a aprovação de Deus e um destino extremamente feliz, ver Sl 1. Sabendo que a felicidade é a meta comum a todo ser humano, e que possuimos um instinto inato que nos impele a buscá-la, ele da manier maestral aplica esse instinto e o direciona a seu objeto apropriado. A idéia central do discurso é que ainda que todos busquem, poucos alcançam a verdadeira felicidade, pois procuram em lugares inapropriados.
3.    ↑ Ou Pobres de Espírito, refere-se aos que tem maior necessidade espiritual, que estão consciêntes dos próprios pecados e portanto profundamente aptos a perceber a necessidade da misericórdia de Deus. No sermão encontrado no evangelho de Lucas omite-se o "de espírito", o que leva muitos a suporem que Jesus se referia aos materialmente pobres. Realmente na Bíblia pobreza material é acompanhada de necessidade espiritual, mas ainda assim são espécies distintas de pobreza que podem e frequêntemente são combatidas separadamente.
4.    ↑ O contexto indica que se tratam dos que choram por causa do pecado e do mal, especialmente os deles mesmo lamentando o fracasso da humanidade em dar glória devida a Deus.
5.    ↑ Mansos, assemelha-se ao Sal 37 e talvez reporte-se a ele. A mansião aqui é de natureza espiritual, uma atitude de humildade e submissão a Deus, cujo o modelo é Jesus. A mesma palavra é usada para Cristo em 11,29 qu se sumete a vontade do Pai.
6.    ↑ É o cumprimento das promessas feitas a Abraão que Paulo chama de herdeiros do mundo.
7.    ↑ Sendo Deus espírito, sua essencia é invisivel, ver Cl 1,15 e 1Tm 1,17. Contudo os de coração puro verão a Deus por meio dos olhos da fé. Jesus assegurou aos seus discipulos que aqueles que os vê, vêem o Pai, ver Jo 14,9. Ainda no estado de glória os filhos de Deus verão Deus, cmo ele é, ver 1Jo 3,2
8.    ↑ Mais do que o simples cessar da violência física, trabalhar pela paz pode ser entendido como encontrar a paz com Deus, consigo mesmo e com seu semelhante. O princípio será ampliado pelo evangelho ao ponto de exortar os filhos de Deus a buscar a paz com seus próprios inimigos.
9.    ↑ Os depósitos de sal ao longo do Mar Morto contêm não apenas o nosso sal (cloreto de sódio), mas uma variedade de outros minerais. Este sal podia se tornar inútil no caso da chuva levar sua salinidade. Na época, o valor primário do sal não era apenas como condimento, mas em sua capacidade de preservar os alimentos. Os discipulos devem ser obstáculos a expansão do pecado no mundo.
10.    ↑ Os versículos seguintes devem ser entendidos à luz desta afirmação. Ao cumpriri a Lei Jesus não a altera, substitui ou anula os mandamentos anteriores, mas revela seu verdadeiro intuito com seu ensino e os cumpre em sua vida obediênte. o cristianismo ensina que a lei e os profetas apontam desde sempre para Cristo.
11.    ↑ Até que tudo se cumpra, ou seja, até a plena manifestação do reino de Deus, cujo os discipulos são orientados a orar em 6,10.
12.    ↑ Jesus não critica os fariseus por sua estrita observação da lei, mas por sua ênfase na aparência externa sem uma atitute interior adequada. Seu discurso sugere que os que não observam os pequenos preceitos não serão excluídos do céu, mas ocuparão os últimos lugares.
13.    ↑ Tolo, Racá, aparentemente a lei judaica abria exceções para este insulto específico, mas Jesus mostra que qualquer insulto está sujeito é condenável.
14.    ↑ Não está certo se os versículos 23-24 e 25-26 tratam do mesmoa assunto, posto que por certo há uma mudança no discurso. A primeira parte parece se referir a um irmão ofendido enquanto a segundo a uma sociedade maior. Os cristãos devem trabalhar pela reconciliação em todas as áreas da vida.
15.    ↑ A imagem sugerida é forte e enfatiza a severidade de uma ética radical. A idéia de automutilação jamais foi defendida pela cristandade, pois é óbvio que não é o olho que estimula luxúria, mas a mente.
16.    ↑ Alguns entendem que a proibição do juramento é universal, mas Jesus mesmos e submeteu a juramento, ver 26,63, e Paulo invocou a Deus como testemunha, ver Rm 1,9. Jesus parece afinal estar contestando o legalismo estreito e enganador que exige juramentos específicos para obrigar o cumprimento do que foi dito. A implicação é que não devemos ser honestos apenas quando juramos.
17.    ↑ A intenção de Ex 21,24 e Lv 24,20 é que a punição deveria ser adequada ao crime. Esta orientação evitava que houvessem punições diferentes para classes sociais diferentes ou punições desmedidas como a de Lameque, ver Gn 4,23. Este princípio foi deturpado para justificara vingança pessoal que Jesus se contrapôs.
18.    ↑ Não combatam, ou Não resistam, mais apropriadamente significa "não busque restituição no tribunal" Um tapa na cara significa tanto uma agressãoo quanto uminsulto ou uma injúria. A observação de Jesus lembra Is 50,6.
19.    ↑ Na ocasião a possibilidade de um soldado romano coagir uma pessoa a servir como guia ou transportador de carga era real. Mesmo se obrigado por força a fazer alguma cois a alguém a pessoa pode demonstrar liberdade para fazer voluntariamente mais do que foi exigido ao invez de fazer o serviço com má vontade.
20.    ↑ Ao contrário dos outros casos esta passagem não está nas escrituras hebraicas, mas era uma conclusão dos escribas e mestres da Lei inferido de uma compreensão estreita do que significava próximo como simplesmente um outro judeu. Jesus revela o significado profundo de Lv 19,18 em Lc 10,29-27.
21.    ↑ O padrão de Deus exige de seu povo nada menos do que a perfeição. Mesmo que esta perfeição não seja atingida nesta vida, ela é o objetivo de todos os que se tornaram filhos do Pai, ver Fp 3,13-14

terça-feira, dezembro 13

O que significa fé em hebraico

O que significa fé em hebraico

                                                                                             Escrito por karloz fevereivo 2011
O que significa a palavra fé? Muitos dizem que fé é crer, mas essa teoria é uma teoria humana e não bíblica, pois ela não condiz com as escrituras no original,  a palavra fé no português é uma abreviação da palavra fiel , e a palavra fiel é uma abreviação da palavra fidelidade.portanto mesmo na língua portuguesa ela não tem o sentido de crer. Agora vamos analisar a palavra fé no hebraico arcaico o qual foi escrito a primeira aliança(antigo testamento) a palavra fé no hebraico é emuná essa palavra é uma palavra feminina por ela ser uma palavra feminina ele só tem dois significados que é fidelidade e adesão, no hebraico moderno ela tem vários significados inclusive crer ,mais a primeira aliança não foi escrita no hebraico moderno e sim no hebraico arcaico e isso tem muito diferença, um outro detalhe é que a palavra crer de confiança no hebraico é BOTEACH (CREIO) verbo LIVTOACH (ACREDITAR)  ai eu pergunto se a palavra crer são de raízes e distinções diferentes como elas podem ter o mesmo o mesmo significado? Isso é algo impossível.
Com relação ao texto de atos 2:31 onde diz:e eles disseram: crê no SENHOR JESUS CRISTO e serás salvo , tu e a tua casa.quero lembrar aos amigos leitores que essa palavra crer no hebraico é MAAMIN  que significa obedecer , portanto quando diz crê no SENHOR JESUS e serás salvo , é no sentido de obediência  ou seja se tu for obediente serás salvo tu e a tua casa , até porque se só crer salvasse isso colocaria em risco as escrituras pois assim haveria uma grande contradição , pois se só crer salvasse as ESCRITURAS não exigiria  santidade bastaria só crer portanto não basta só crer devemos ser obedientes a YESHUA e a sua SANTISSIMA PALAVRA.pois em João 15 diz que somos amigos de YESHUA quando obedecemos e cumprimos sua palavra, e quando se fala em obedecer e cumprir seus mandamentos não é só em conhecer , como muitos pensam mais sim viver esses mandamentos na prática no dia a dia , pois a maioria das pessoas dizem conhecer os mandamentos mais se você perguntar a ordem dos mandamentos a maioria não sabe dizer todos , e você sabe

sábado, dezembro 10

  • Introdução
    O Terceiro Templo é hoje uma das questões mais controvertidas da atualidade em Israel. Há uma facção que diz não ser necessária a reconstrução do Templo, enquanto há outra que tem lutado arduamente a fim de prepararem os móveis, utensílios e homens santos (cohanin - sacerdotes) a fim de que, quando o Terceiro templo foi reconstruído, as demais coisas já estejam todas preparadas a fim de serem colocadas ali como no primeiro e segundo Templos.

    Para alguns o projeto de reconstrução do Terceiro Templo não passa de uma grande utopia. Na opinião destes, existe em Israel um "bando" de religiosos fanáticos que querem à todo o custo colocar novamente o Templo sobre o Monte de Sião, local onde atualmente está construída a Mesquita da Cúpula Dourada! E é justamente em função da Mesquita estar ali que este grupo de pessoas julga "impossível" a reconstrução do Terceiro Templo (pelo menos naquele lugar específico!).

    Já para outros, há uma realidade profética por trás desta reconstrução, pois acreditam que o Templo reconstruído será o lugar onde o homem da iniquidade (Anticristo) irá sentar-se reivindicando a deidade para si. E este fato não será plenamente possível de cumprimento, salvo quando o Templo for reconstruído! Vejamos o que nos diz Paulo: "Ora, irmãos, rogamo-vos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, e pela nossa reunião com ele, que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto. Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição, O qual se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus. Não vos lembrais de que estas coisas vos dizia quando ainda estava convosco?" (2 Tessalonicenses 2:1-5) [grifo nosso].

    Por estes motivos há um dualismo quanto ao que espera-se em relação ao Templo. Alguns judeus oram em Israel a fim de que aconteça um "terremoto" e a Mesquita seja destruída, pois somente assim eles poderão novamente cultuar ao D-us Eterno de forma plena e satisfatória!

    Para entendermos o que está prestes a acontecer, precisamos primeiramente conhecer a história do Templi e suas funções, a fim de que possamos "juntar" os fatos e compreendermos o que o Eterno está fazendo na história a fim de cumprir Sua Palavra!
  • O Templo
    A destruição do Templo em Jerusalém no ano 70 d. C. tem um grande significado, pois afetou o judaísmo e o cristianismo de formas até hoje não compreendidas.

    Para os judeus tradicionais a destruição do Templo trouxe, obviamente mais conseqüências. O que não é tão óbvio é o papel que o Templo desempenhou na mente e nas vidas dos judeus messiânicos. Muitos "cristãos" não consideram ser os primeiros judeus messiânicos judeus de fato, mas a Bíblia nos mostra claramente que isso não é verdade. At 21.18-20 - E no dia seguinte, Paulo entrou conosco em casa de Tiago, e todos os anciãos vieram ali... Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus há que crêem, e todos são zeladores da lei...

    Temos quatro homens que fizeram voto; toma estes contigo, e santifica-te com eles, e faze por eles os gastos (sacrifícios do templo) para que rapem a cabeça, e todos ficarão sabendo que nada há daquilo de que foram informados acerca de ti, mas que também tu mesmo andas guardando a lei. Então Paulo, tomando consigo aqueles homens, entrou no dia seguinte no templo, já santificado com eles, anunciando serem já cumpridos os dias da purificação; e ficou ali até se oferecer por cada um deles a oferta (sacrifício). As oferendas do Templo eram sacrificiais por natureza. O voto mencionado aqui é o voto do nazireu, e é reconhecido pelas cabeças raspadas. O motivo para fazerem o voto do nazireado era para servir no Templo junto com os Kohanim (sacerdotes) e os levitas. Seus deveres incluíam trabalhar na área do altar onde os sacrifícios eram oferecidos. Se o Templo não tivesse um grande significado para os judeus messiânicos, então porque eles fizeram o voto do nazireado?
  • Por que o Templo era necessário
    O Deus de Abraão era unicamente identificado por sua ausência de aparência exterior. Isto reflete sua natureza como sendo um Deus que iria finalmente tabernacular no homem e não viver numa construção física feita com esforço humano. Desde o princípio, seu mais notável atributo é o de influenciar mudanças na natureza humana, como nos é mostrado nos "Dez mandamentos". Eles vão contra a natureza da humanidade, requerendo-nos que nos esforcemos para mudar nosso caminhar e que reatemos nossos laços uns com os outros.

    Deus sempre desejou tabernacular com o homem. Na antigüidade, ele escolheu homens que ouviram sua voz e o obedeciam sacrificialmente. Noé foi o mais notável patriarca no qual Deus habitou antes do dilúvio. Ele usou Noé para "salvar" a humanidade. O próximo patriarca digno de nota com o qual Deus habitou foi Abraão, o qual de bom grado ouvira a voz do "Deus que era único" e o obedeceu. Passando por alguns notáveis, chegamos a Moisés, um profeta extraordinário com o qual Deus habitou e que foi usado por Ele para trazer-nos os primeiros oráculos da divindade sem rosto, e desde essa época, sem nome.

    Moisés recebeu ordens para construir um tabernáculo que seria simplesmente uma manifestação de uma habitação que era, na realidade, uma cópia daquilo que estava nos céus. Era portátil e continha duas câmaras internas, uma das quais chamada de "santo dos santos". Dentro desse lugar santíssimo foi colocada a Arca da aliança. Na arca haviam dois querubins cobrindo o "local de misericórdia". Quando Deus falou a Moisés ou ao Koen Gadol (sumo sacerdote), foi do espaço vazio entre os querubins, sobre o local de misericórdia.

    Foram dadas instruções a Moisés para escrever a Torah (Lei) do Senhor e que deveria ser transmitida através das gerações. A razão para fazer-se isso é que Moisés ouvira do Senhor termos inconfundíveis, falado "face à face" com o Senhor.

    Neste ínterim, o povo precisaria lembrar-se diariamente que o Senhor era o único e verdadeiro Deus e que Ele estava com eles. O tabernáculo serviria para isso. O povo olharia para o tabernáculo e veria com seus olhos algo que representava o Reino de Deus. Isto era estranho para aqueles que observavam de longe, mas o povo de Israel sabia o significado daquele lugar.

    O tabernáculo, e mais tarde o Templo, tornaram-se o foco central de suas vidas. Todos estavam continuamente cientes da presença do Senhor e do sumo sacerdote, que era seu representante autorizado. Não que não houvessem outros que carregassem o manto profético entre o povo. Às vezes, Deus escolhe indivíduos para neles tabernacular, que falem as palavras de Deus ao povo. Isaías, Jeremias, Elias e Eliseu estavam entre os mais notáveis destes profetas.

    Finalmente, o rei Davi quis construir uma casa real para o Senhor, mas por causa de seus pecados o Senhor lhe disse que não lhe seria permitido construir o Templo. Salomão, seu filho, foi aquele escolhido por Deus para construir sua morada.
  • As finalidades do Templo
    * Expiação pelo pecado - o sacrifício pelo pecado foi a única oferta pelo pecado que nós fizemos à Deus e que também foi totalmente cumprida na morte de Yeshua.

    * Sacrifícios - ofertas de gratidão, ofertas queimadas, ofertas votivas, ofertas pelo pecado, redenção do primogênito, ofertas de dedicação, primícias, dízimos, e muitos mais eram os sacrifícios feitos no Templo. Animais eram sacrificados antes de serem consumidos.

    * Justiça - o sistema judicial em Israel deriva-se da autoridade do sacerdote (suprema corte) localizada no Templo em Jerusalém. Quando irmãos tinham um conflito, a autoridade máxima para resolver as disputas entre a comunidade era o sumo sacerdote no Templo. Quando o Templo foi destruído, não havia mais lugar de autoridade que restasse para resolver esses assuntos.

    * Registros oficiais - a linhagem de todas as famílias das tribos de Israel eram guardados no Templo. Quando o Templo foi destruído, não havia mais registros hereditários. Sem os registros das linhagens, seria impossível dizer quem certamente descendia de quem. Considerando-se que todas as disputas eram decididas no Templo, é fácil ver quão importantes eram estes registros.

    * Oráculos de Deus - entre os deveres do sacerdócio estava o ofício da profecia oracular. O sumo sacerdote era consultado por indivíduos que solicitavam-lhe direção ou instrução de Deus.

    * Bênçãos e dedicações - Nós íamos ao Templo para dedicar nossos filhos ao Senhor. Não havia maior alegria que um pai poderia ter que a de ver seus filhos dedicados ao serviço do Senhor.

    * Estudo da Torah - apenas no Templo nós poderíamos achar aqueles em quem confiávamos para serem instrutores da Torah e das práticas do Templo. Apenas ali poderíamos ter nossas perguntas respondidas acerca dos aspectos mais difíceis do estudo da Torah e suas observâncias.

    * Benevolência - aqueles que precisavam de ajuda sempre iam ao Templo e recebiam benevolência. Depois que o Templo foi destruído, onde iria uma pessoa que precisa de assistência?

    Havia outras funções que o Templo desempenhava na vida judaica, tais como casamento, feriados e outros eventos comunitários, mas os listados acima são os de maior significância.

    Nenhum destes sacrifícios ou eventos cessaram depois que cremos em Yeshua.
    Agora que podemos ver quão importante foi o Templo em nossas vidas diárias, como poderemos nós cumprir os requisitos da Torah sem o Templo?

    Como foi mostrado no início deste documento, questões sobre como viver uma vida judaica sem o Templo, foram e ainda são importantes para os judeus messiânicos tanto como para os judeus tradicionais. Os judeus do primeiro século não entenderam que o Senhor queria tabernacular neles como fora dito pelos profetas na antigüidade.

    Na época deste documento, nós estamos nos preparando para observar a festa de Chanukah 5758, ou o Festival da rededicação. Meus pensamentos giram em torno de um novo dia quando o Templo será reconstruído. Se a dedicação do segundo Templo foi tão importante, quanto nos alegraremos quando o próximo Templo for construído?

    Continua o artigo...
    Que o Eterno nos dê condições de compreendermos a Sua Palavra!


    Fonte:Baruch Há Shem!
    Bendito seja o Nome!

segunda-feira, dezembro 5

O que é o “Livro da Vida”?

Livro da Vida
O que é o “Livro da Vida”?
A definição não é clara, mas torna-se pertinente para nossas vidas enquanto pessoas que creem na vida após a morte, de acordo com sua definição baseada nas Escrituras. O Livro da Vida é o livro que está nos céus e que registra os nomes das pessoas que viveram uma vida de acordo com os preceitos das Escrituras e que portanto terão direito à vida eterna juntamente com o Criador e toda a corte celestial.
O Judaísmo nos fala algumas coisas sobre o “Livro a Vida”
“Em Rosh Hashaná, após a prece da noite, cumprimentamos todos falando: Leshaná Tová Ticatêv Vetechatêm (que sejas inscrito e selado para um ano bom). Ao proferir isto, é como se pudéssemos ver os três grandes Livros Divinos abertos perante D'us: o Livro dos Justos; o Livro dos Perversos e o Livro dos Medianos - onde é provável que nos encontremos, com nossas boas e más ações quase se equiparando. Apenas uma mitsvá a mais e a balança penderá a nosso favor.”
Os judeus oram de uma forma a reconhecerem seus pecados e a pedirem para o Eterno que eles sejam inscritos no livro da vida a cada ano! Isso se dá por que o homem precisa renovar com o Eterno o seu “pacto de salvação” buscando melhorar a cada dia e também lembrando-se com frequência de que o Soberano do Universo deseja que a cada dia façamos nossa teshuvá para Ele. A oração é feita da seguinte forma:
"Lembra-Te de nós para a vida, ó Rei que desejas a vida, e inscreve-nos no Livro da Vida, pelo Teu bem, ó D'us vivo" (Amidá, Dez Dias de Arrependimento).
Qual o significado de "para Teu bem"? De que maneira pode a extensão da vida de uma pessoa ser pelo bem de D'us?
Deveríamos ler o versículo de maneira um pouco diferente.. "Inscreve-nos no livro de uma vida que é vivida para Teu bem." Em outras palavras, rezamos não apenas por vida, mas por uma qualidade de vida que seja plena de significado e propósito, uma que será vivida para a maior glória de D'us.
Algumas pessoas consideram a vida entediante, e não é de se admirar que estas pessoas procurem escapar deste tédio. Alguns voltam-se para drogas ou álcool, outros a uma busca por excitação e hobbies divertidos, os quais, embora não destrutivos, não têm utilidade alguma, a não ser a de escapar.
Mas por que deveria haver uma válvula de escape? Por que a vida precisa ser entediante? A pessoa cujo objetivo é ajuntar uma grande riqueza jamais se cansa de adicionar mais a esta já vasta fortuna. Se temos o tipo de propósito na vida que nos permita acrescentar a ela continuamente, jamais nos sentiremos entediados.
É claro, queremos ser inscritos no Livro da Vida, mas deveria ser uma vida que desejamos viver, e não uma da qual procuramos escapar.
“...Todos desejamos levar uma vida significativa. Mas por que estamos vivendo? O que estamos fazendo neste mundo?
Para encontrar a resposta a essa questão fundamental, devemos procurar no próprio livro da vida – a Torah, que é chamada Torah Chaim (Torah Viva). A palavra “Torah” significa “instruções” ou “orientação”, pois a Torah é nosso guia na vida. Ela nos faz constantemente cônscios de nossos deveres nos fornecendo uma verdadeira definição de nosso propósito, nos mostrando os caminhos e meios de atingirmos esta meta”.

As Escrituras e o "Sefer Há Chaim"

A primeira referência que aparece acerca do “Sefer Há Chaim” está no livro de Salmos onde está escrito: “Sejam riscados do livro da vida, e não sejam inscritos com os justos” Sl 69:28. No contexto vemos os inimigos de David que nutriam ódio profundo por ele e portanto faziam com que ele soubesse disso em sua dia-a-dia. No contexto David fala de diversas posturas que o incomodam no tratamento que recebe destas pessoas e finalmente ele profere as palavras do verso 28 como uma oração e pede ao Eterno que estas pessoas que agem desta forma sejam riscados do livro da vida e não sejam inscritos com os justos.
Duas coisas devemos observar aqui: a primeira é que estas pessoas podem sim ter seu nome riscado do livro da vida e para que isso aconteça elas devem agir de forma contrária às Escrituras perdendo assim o direito a terem seus nomes neste livro. A segunda observação é que ele pede para que estas pessoas não sejam inscritas com os justos no livro da vida! É notável que a palavra usada aqui que foi traduzida por “inscrever” vem do termo hebraico “katab” que significa “escrever, registrar, alistar”; na raiz temos o termo “ketuba” que é o contrato de casamento feito entre o Noivo e a noiva. O que David pede aqui na verdade é que estas pessoas não sejam registradas como parte da “noiva” pois sua conduta demonstra a impossibilidade disso acontecer.
A Tanach já nos mostra que uma pessoa que tinha seu nome inscrito no “Sefer Há Chaim” poderá eventualmente perder este privilégio e portanto não será “salva”. Isso é impressionante, pois este conceito é claro na Brit Hadasha, mas nunca houve qualquer apontamento claro acerca disso na Tanach. Agora descobrimos que já havia um plano do Eterno para que o homem pudesse salvar-se, mas é necessário que esta pessoa também mantenha a sua salvação, não dando lugar a pecado e nem mesmo ao maligno que já atuava fortemente buscando desviar o homem do caminho que conduz à vida eterna. Este caminho passa pela obediência às Escrituras e a confiança de que o Ungido deverá vir para salvar – resgatar – todo aquele que n´Ele espera.

O "Sefer há Chaim" na Brit Hadasha

Quando lemos a Brit Hadasha notamos logo de início que havia um claro discernimento entre seus escritores acerca do “Sefer há Chaim”. Vejamos o que nos diz Sha´ul a esse respeito: “E peço-te também a ti, meu verdadeiro companheiro, que ajudes essas mulheres que trabalharam comigo nas boas novas, e com Clemente, e com os outros cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida” Fp 4.3. Sha´ul afirma que diversas pessoa tem seus nomes registrados no “Sefer há Chaim”. Mas, como seria possível a ele ter essa certeza? Bem vamos analisar aqui alguns fatos importantes:
Para reconhecer se uma pessoa tem seu nome escrito no Sefer há Chaim é preciso ter se constatado uma grande mudança em sua maneira de viver e um testemunho que respalde essa conduta diariamente.
É necessário que se tenha o testemunho e a revelação do Espírito o Santo para que se possa saber que estas pessoas tem seu nome no Sefer há Chaim. Para isso é necessário que se tenha uma grande intimidade com o Espírito.
O fato de se ter o nome registrado neste livro indica que muitas coisas aconteceram na vida da pessoa em questão e indica também que está havendo uma continuidade em seu relacionamento com o Eterno. A isso chamamos de “desenvolver a salvação”, que nada mais é do que o aprimoramento da santificação do homem através de sua obediência aos mandamentos do Eterno.
Há também uma outra testificação que advém das trevas. Isso ocorre quando há confronto e oposição do nosso adversário contra aquilo que fazemos ou falamos. Este é um sinal claro de que nós estamos com nossas vidas diante do Eterno, pois não haveria oposição da parto do nosso adversário se estivéssemos trabalhando “para ele”. Quem trabalha como parceiro do Eterno sofrerá oposição e retaliações do maligno, que não suporta a presença dos santos na terra. Somente a presença de pessoas salvas e de conduta santificada já causa um grande incomodo nas trevas. Estas pessoas tornam-se alvos do maligno não somente pela oposição em si, mas também pelo fato de que o maligno deseja muito que aqueles eu estão caminhando com Ieshua tornem-se seus parceiros – do maligno – e consequentemente inimigos do Eterno e seus opositores. Esta é uma das maiores vitórias que o maligno pode obter, quando faz com que um santo torne-se profano e mude de lado!
Quando isso acontece, qual é a consequência para esta pessoa que agiu desta forma?

Tendo o nome apagado do “Sefer há Chaim”

É possível “perder-se” a salvação? As Escrituras nos afirmam que sim e isso está expresso no livro de Apocalipse, onde está escrito: “O que vencer será vestido de vestes brancas, e de maneira nenhuma apagarei o seu nome do livro da vida; antes confessarei o seu nome diante de meu pai e diante dos seus mensageiros” Ap 3.5.
Estas são palavras ditas por Ieshua, e certamente falam profundamente com todos aqueles que guardam pelo menos uma fagulha de temor ao Eterno em seus corações, pois podemos começar nossa caminhada com Ele e ir bem até certo ponto, mas é necessário continuar-se sempre adiante rumo à conquista final da salvação. Sha´ul nos fala sobre isso dizendo: “Também vos notifico, irmãos, as boas novas que já vos tenho anunciado, as quais também recebestes e nas quais também permaneceis; pelo qual também sois salvos, se as retiverdes naquela maneira, tal como vo-las tenho anunciado, se não é que crestes em vão” I Co 15.1,2.
A salvação é um processo; enganam-se aqueles que dizem que “uma vez salvo, salvo para sempre”. Na teologia, tem-se dito que isso acontece por que o Eterno “escolheu” alguns para a salvação e outros para a perdição. Isso seria contrário às Escrituras, pois está escrito: “Porque isto é bom e agradável diante de Elohim, nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” I Tm 2.3,4. Quem não vencer – perseverar até o fim – não poderá “herdar” a vida eterna e consequentemente não terá seu nome escrito no “Sefer há Chaim”, ou mesmo poderá ter seu nome apagado deste livro!
O Eterno então não predestina ninguém para a morte; Ele de fato conhece quem vencerá e alcançará a vida eterna pois já viu o final da história da humanidade. Este conhecimento de todas as coisas permitiu ao Eterno nos mostrar que Ele mesmo tem o desejo de que todos se salvem; porém nem todos desejam se salvar, alguns preferem a inferno e o escolhem enquanto estão caminhando no mundo. A escolha é pessoal, mas pode ser mudada até o último momento da vida da pessoa. A isso chamamos de “livre arbítrio”.
O livro de Apocalipse diz ainda que a escolha errada leva o homem a ser cegado e a adorar a criatura no lugar do Criador. Isso ocorrerá de uma forma ainda mais explícita no período conhecido como “Grande tribulação” e uma personagem se destacará nisso: a besta. Sobre esta personagem está escrito: “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro, que foi morto desde a fundação do mundo” Ap 13:8. O texto é claro demonstrando que a besta é adorada por aqueles que não tem seus nomes escritos no livro da vida! A conclusão é fácil: quem não ama ao Eterno e o obedece está do lado do maligno e sofrerá as consequências por isso!
Mas devemos estar alertas para um fato: o maligno engana as pessoas fazendo-as julgar que seus atos e estratégias são maravilhosos e que darão a estas pessoas algo de qualidade na vida. Há um “show” por trás do maligno, que apresenta-se como grandioso e como poderoso. Na “grande tribulação” as pessoas ficarão fascinadas com a besta. “A besta que viste, foi, e já não é, e há de subir do abismo, e ir-se à perdição. E os moradores da terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo) se maravilharão, vendo a besta que era, e já não é, ainda que é” Ap 17:8. O fascínio exercido pelo maligno já é antigo, pois desde sempre o maligno tem enganado as pessoas com uma forma exuberante e com “shows pirotécnicos” a fim de impressionar os incautos e os desavisados. A aparência suntuosa não engana os santos e aqueles que estão conectados com os céus; estes sabem discernir o que é excelente e o que é lixo!
A consequência final do engano é: “E vi aos mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de IHVH, e foram abertos os livros: e foi aberto outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, conforme as suas obras” Ap 20:12. No dia do grande julgamento serão abertos os livros que estão diante do Eterno e nestes livros estão registradas as atitudes dos homens e suas reações às abordagens que foram feitas pelos céus em suas vidas a fim de que fizessem teshuvá e permanecessem ao lado do Criador. Este será um dia de muito choro, sofrimento e angústia, pois muitos daqueles que se achavam “salvos e seguros” verificarão de fato qual será seu destino final! Neste dia ficará claro que o engano e tudo aquilo que se relacionava com o maligno não valerá a pena, pois o preço a ser pago com a morte eterna não é nem de perto conhecido por aqueles que ainda estão vivos! Oxalá a humanidade tenha temor da morte eterna e possa voltar-se para o Eterno!
O ínferno – e depois o lago de fogo – são os destinos daquelas pessoas que amaram mais ao maligno do que ao Eterno e sua palavra. Apocalipse registra que: “E quem não foi achado escrito no livro da vida, foi lançado no lago de fogo” Ap 20:15. Então a chave para não ser lançado no lago de fogo é ter o nome escrito no livro da vida! A nós hoje é necessário que tenhamos uma vida que esteja de acordo com os padrões do Eterno para que possamos então ter nossos nomes escritos no “Sefer há Chaim” e portanto estejamos livres da condenação no inferno e do lago de fogo! Muitos dizem que o inferno é aqui na terra, mas estão enganados. Eu nunca estive no inferno, mas posso afirmar que não desejo que nem o pior ser humano que habita na terra vá para lá; oro para que todos possam ser libertos das garras do maligno e possam finalmente alcançar a vida eterna.

A “Jerusalém Restaurada”

Esta cidade que está nos céus e que espera seus moradores é a cidade que conhecemos como “cidade santa” e que tem uma outra cidade na terra que carrega o mesmo nome: Ierushalaim – Jerusalém. Esa cidade é tão santa que nela não entrarão: “E não entrará nela coisa alguma que suja, ou que faz abominação e mentiras, porém somente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” Ap 21:27. Assim como ter o nome escrito no “Sefer há Chaim” livra do inferno e do lago de fogo este mesmo registro dá direito para que entremos na Jerusalém Restaurada que é a cidade onde habitarão os vencedores e aqueles que amaram mais ao Eterno e sua palavra do que o mundo!
A advertência final é: não mudem o conteúdo das Escrituras, pois perderão aqueles que assim o fizerem. O Eterno nos deixou um registro sagrado para que possamos, através dele, encontrar o caminho para a vida eterna sem qualquer dificuldade. Aos que violarem esta proibição resta o prejuízo! “... e, se alguém diminuir das palavras do livro desta profecia, Elohim tirará a sua parte do livro(da árvore) da vida e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro” Ap 22:19.
Que tenhamos tempos de teshuvá e de uma caminhada firme e segura na presença do Rei Ieshua, para que nossos nomes sejam confirmados no Sefer há Chaim até a volta do Ungido, em nome de Ieshua!

Provérbios de Salomão: conceitos educacionais e mediacionais

Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG - Volume 1, n. 2 – março, 2008

Provérbios de Salomão: conceitos educacionais e mediacionais

Emerson Santos Amaral*
Igor da Silva Miguel**



A teoria da Experiência da Aprendizagem Mediada é universal, mas tem significância especial quando diz respeito à cultura do povo judeu.


Reuven Feuerstein
Introdução
A Teoria da Experiência da Aprendizagem Mediada (EAM) foi desenvolvida pelo cientista israelense Reuven Feuerstein, em seus longos anos de pesquisa sobre sujeitos que apresentavam, em alguma medida, dificuldades de aprendizagem. Reuven Feuerstein (nascido em 1921 na Romênia), judeu e psicólogo, foi aluno de Jean Piaget (1896-1980) em Genebra. Entre os anos de 1950-54, o Estado de Israel lhe confiou a tarefa de desenvolver a capacidade cognitiva de crianças e adolescentes sobreviventes da Shoá,1 que na ocasião, apresentavam um quadro de defasagem intelectual preocupante para o recém criado Estado. Feuerstein descobriu, nessa ocasião, que os testes psicométricos aplicados para avaliar um suposto “grau de inteligência”, não detectavam o potencial de aprendizagem daqueles sujeitos. A conclusão pessoal do cientista, foi que eles sofriam de um tipo específico de distúrbio cognitivo, mais tarde denominado por ele de Síndrome de Privação Cultural. Constatou-se, enfim, que a capacidade de aprender poderia ser desenvolvida através de intervenções mediadoras e, que a causa da privação cultural era a ausência de mediação. Por mediação, entende-se um tipo específico de interação cultural, que disponibiliza ao sujeito as ferramentas intelectuais e culturais necessárias para a habilidade de aprender a pensar. Sobre as experiências de Feuerstein com indivíduos que sofriam de “Privação Cultural”, que será analisado adiante, Gomes observa:
O grupo com dificuldades era privado culturalmente em sua própria cultura, as crianças não haviam aprendido a criar estratégias, a perceber de forma lógica, a contextualizar, a memorizar adequadamente, etc., de modo que não tiveram suas funções cognitivas ativadas, de maneira ampla, para se adaptar às diversas necessidades da vida. Não tiveram essa oportunidade porque não foram impulsionadas pelos representantes de sua própria cultura. Faltava-lhes uma interação própria, um processo de mediação (2002, p. 72-73).
Para Feuerstein (1991), o ser humano pensa a partir dos critérios lógicos de sua dimensão cultural. Isso significa que sua leitura de mundo tem, por interface, os instrumentos decodificadores recebidos por mediação ou por transmissão cultural. A idéia de Aprendizagem Mediada se desenvolveu sob influência dos pressupostos sócio-interacionistas de Vygotsky (1991), que percebeu que o desenvolvimento cognitivo do sujeito era determinado por sua interação com a cultura e, à medida que ele ampliava seu repertório simbólico, potencializava sua capacidade de pensar. Por isso, o bom funcionamento das operações mentais básicas da inteligência como: análise, comparação, síntese, classificação, seriação, diferenciação e codificação-decodificação; dependem profundamente dos critérios ou ferramentas psicológicas (VYGOTSKY, 1991) desenvolvidas em uma cultura específica. Essa introdução à forma de pensar de uma dada cultura, opera-se através da aprendizagem mediada, ou da interação do aprendiz com um sujeito iniciado (o mediador) nos referidos elementos culturais. Um bom exemplo dessa questão seria quando um pai explica à sua filha, que o desenho na porta de um banheiro é de uma “menina com uma saia”, e que isso significa, que aquele lugar é restrito a pessoas do sexo feminino. O que o mediador (o pai) faz, nessa ocasião, além de explicar o símbolo em si, é introduzir o mediado (a filha) ao mundo simbólico, demonstrando que há uma função comunicativa em padrões, e que a diferença entre os padrões, determina a especificidade do que está sendo transmitido.
Para Vygotsky (1991, p.64), esse desenvolvimento do aprendiz (mediado), se dava primeiro em dimensão interpsicológica (mediação interpessoal) e finalmente em dimensão intrapsicológica (mediação autônoma), assim para ele:
Todas as funções no desenvolvimento da criança aparecem duas vezes: primeiro, no nível social, e, depois, no nível individual; primeiro, entre pessoas (interpsicológica) e, depois, no interior da criança (intrapsicológica). Isso se aplica igualmente para a atenção voluntária, para a memória lógica e para a formação de conceitos. Todas as funções superiores originam-se das relações reais entre indivíduos humanos.
Dessa forma, Feuerstein rompe o paradigma construtivista que postula aprendizagem como: produto da relação do homem (respeitando sua maturação biológica) com os estímulos da realidade. Sua abordagem centra-se na presença de um mediador humano, que introduz valores e códigos culturais fundamentais para o desenvolvimento intelectual e autônomo do aprendiz. Ele define enfim, que a Aprendizagem Mediada é:
Uma interação marcada por uma necessidade cultural, de que cada geração dê forma à estrutura de comportamento das gerações sucessivas, transmitindo a eles as dimensões passadas, presentes e futuras de sua própria cultura (FEUERSTEIN, 1980, p.73 – tradução nossa).2
Paralelo ao trabalho de Reuven Feuerstein, seu irmão Shmuel Feuerstein, da Universidade de Bar Ilan, Israel, desenvolve pesquisas interdisciplinares nas quais procura um ponto de contato entre a mediação-educacional e o judaísmo. Segundo ele, a mediação:
[...] opera no domínio do cognitivo, com algum alcance nas áreas da emoção e motivação. Pouco tem sido dito ou feito com respeito à educação de valores. O judaísmo enfoca fortemente o processo de transmissão de valores e conduta. Estes processos ligam a vida cognitiva e emocional do indivíduo a um vasto campo de atividades humanas. (FEUERSTEIN, 2002b, p. 2.)
O autor menciona em sua obra Biblical and Talmudic Antecedents of Mediated Learning Experience Theory (FEUERSTEIN, 2002b), que esse elemento educacional e mediador do judaísmo, também pode ser percebido em fontes clássicas, como a própria Bíblia Hebraica. O objetivo deste artigo é refletir sobre o conceito de transmissão, mediação e privação cultural de Reuven Feuerstein, para enfim, vislumbrar a presença da aprendizagem mediada em algumas expressões hebraicas de cunho educacional, adotadas pelo Rei Salomão na doxologia de sua principal obra, Os Provérbios.
1. O fundamento da transmissão cultural no judaísmo
Produto de sua longa trajetória histórica e memória cultural, o judaísmo caracteriza-se por rica tradição religiosa. Os mediadores culturais da tradição judaica (rabinos, escribas e sacerdotes) legavam intencionalmente à geração posterior a ética, os valores e os códigos culturais; que compõem o weltanschauung3do judeu (seja religioso ou não). Essa tradição mediadoratem suas raízesna Torá, que diz: “E estarão estas palavras que eu te ordeno hoje, no teu coração, e as inculcarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo teu caminho, ao deitar-te e ao levantar-te...” (Dt 6:6-7).4 As palavras que devem ser “inculcadas”, não são outras senão as da própria Torá, também conhecida como Lei de Moisés, apesar do termo Torá não ter conotação legal em si.
Etimologicamente, Torá tem sua raiz no termo hebraico yará que significa basicamente: “atirar, disparar, lançar” (BEREZIN, 2003, p. 280). O sentido geral é de “atingir ou encaminhar para um alvo”, daí deriva-se o significado específico do termo Torá como: instrução ou ensino. Subjetivamente, ensinar ou instruir, seria encaminhar alguém para um objetivo, esta é a função básica da Torá, da Instrução. Cumpre ainda assinalar, que a palavra “inculcarás”, veshinantâm, remete a raiz hebraica shaná, que possui variados significados como: “repetir, reiterar; estudar, aprender; ensinar, instruir, transformar-se, modificar-se, diferir” (BEREZIN, 2003, p. 643). Termos que refletem um significado amplo, transcendendo inclusive a idéia de simples “mnemotécnica”. O sentido geral é de uma ação educativa “transformadora” e “modificadora”; expressões comumente usadas nas teorias educacionais modernas.
A partir dessas informações, percebe-se que a instrução, Torá, deveria ser estudada, interpretada, aplicada e vivenciada. A idéia não seria produzir uma cultura restrita à dimensão “doutrinária”, mas estendê-la a um tipo de práxis pedagógica. Por isso, o judaísmo é mais “ortoprático” que ortodoxo. No processo de ensinar, instruir e conduzir; o que se pretende é preservar a memória responsável pelos elos “trans-geracionais”, tendo em vista a conservação do código cultural. Como afirma Abraham Cohen (1975, p.172, tradução nossa):
A principal responsabilidade que repousa sobre os pais era treinar seus filhos para uma vida como membros da Comunidade de Israel. O ideal a ser alcançado era forjá-los em ligações seguras na cadeia da continuidade, para que a herança religiosa se mantivesse intacta para a geração seguinte. O requisito indispensável para tal consumação era introduzir neles o conhecimento da Torá.5 A idéia geral, ao analisar a “educação judaica” interpretada pela tradição talmúdica, é que inicialmente recai sobre a família e depois sobre os mestres, a responsabilidade da transmissão cultural. É a Torá o instrumento (requisito) indispensável para forjar, na nova geração, o senso de continuidade e de pertencimento. O mandamento de Deuteronômio de ensinar e falar as palavras da Torá, é a mola propulsora da tradição educativa judaica. A idéia básica é impregnar o ambiente, o cotidiano e as práticas sociais com estímulos conceituais, tendo em vista a preservação da memória cultural. Vale mencionar ainda, que o conceito de transmissão cultural aqui adotado, tem a conotação dada por Shmuel Feuerstein de que:
Cultural transmission itself is a universal, ageless phenomenon. All cultures, religions, and social systems aspire towards pratical and ideological continuity. It is often assumed that inter-generational continuity occurs automatically by mere enactment of basic normative cultural behavior or by performing religious rituals. A central argument [...] is that deliberate mediations necessary to Foster cultural transmission [...] (2002b, p. 23).
Transmissão cultural é um sistema social sustentado pela aspiração humana de preservação. O homem, como ser histórico, imprime marcas no tempo e no espaço de sua permanência como espécie. Assim, transmite às gerações posteriores, as experiências e os códigos de identificação e sobrevivência de seu grupo. As raízes da transmissão cultural do judaísmo, podem ser percebidas também, na máxima rabínica do tratado ético chamado Pirkê Avôt,o qual afirma: “Moisés recebeu a Torá do Sinai, transmitiu-a a Josué, Josué aos anciãos, os anciãos aos Profetas e os Profetas a transmitiram aos homens da Grande Assembléia” (Pirkê Avôt, Capítulo 1, Mishná 1).6
Se o verbo “transmitir” usado nessa mishná vem da raiz hebraica masár, que tem o sentido de “entregar, transmitir, dar; delatar; informar, declarar” (BEREZIN, 2003, p. 381) e que a transmissão cultural, ou a introdução mediada de um sujeito às ferramentas culturais ou psicológicas (VYGOTSKY 1991) de uma dada cultura, é fundamental para a potencialização de sua capacidade de aprendizagem. Infere-se que, o quê se transmite não é apenas “informação”, mas instrumentos para que a geração posterior pense ou interprete o mundo de forma apropriada. Mas, como essas “ferramentas” ou “instrumentos” são compartilhados? Ainda em Pirkê Avôt, o que se percebe é que a Torá foi “recebida” e “transmitida” por mediadores (Moisés, Josué, os anciãos e os homens da Grande Assembléia), ou seja, indivíduos vividos que legaram à geração posterior as experiências de seu tempo.
2. O mediador e a mediação
Para Reuven Feuerstein mediação é:
[...] a qualidade de interação entre o organismo e o meio – produz-se pela interposição de um ser humano iniciado e intencionado, que medeia o mundo e o organismo, criando no indivíduo a propensão ou tendência à mudança pela interação direta com os estímulos. A EAM7 é a única que produz a flexibilidade, a autoplasticidade na existência humana e, em última instância oferece-lhe a opção de modificabilidade [...] (citado por GOMES, 2002, p. 80).
O que Feuerstein procura demonstrar, é que existe interação intencional e consciente, entre um sujeito que aprende (mediado) e um sujeito que media (mediador). O mediador é responsável por provocar condições cognitivas no aprendiz, flexibilizando-o intelectualmente para que ele aprenda a se modificar. No caso dos judeus, que vivem sob permanente ameaça da diáspora, a flexibilidade e a abertura para um diálogo com o mundo, sem pôr em risco a identidade e a memória, sempre foi uma questão de sobrevivência cultural. O conceito de mediação, nesse caso, é uma ruptura com a idéia de aprendizagem construtivista. Piaget (1987) definia a aprendizagem como produto de uma relação dialética entre o sujeito e os estímulos da realidade. Para Feuerstein, a presença de um mediador humano, que se interponha entre o estímulo e o aprendiz, é fundamental em uma situação real. Isto se deve ao fato de que sua teoria tem raízes profundas na antropologia cultural, que determina ohumano(não-animal) exatamente por sua capacidade de elaborar códigos culturais. A realidade per si não transmite nada. Porém, é possível interpretá-la e decodificá-la a partir de um repertório de significados, sentidos e conceitos. Este ato interpretativo é uma das características básicas do humano. Por esse motivo, o processo que envolve a interação entre mediador e mediado, possibilita o que Feuerstein evoca como “Experiência da Aprendizagem Mediada”.
3. Critérios para aprendizagem mediada
Reuven Feuerstein (2002a) introduz o conceito de Parâmetros Universais da Mediação, que são as orientações básicas de uma interação humana qualitativamente mediadora. Após vários anos de pesquisa sobre mediação e aprendizagem, o cientista israelense chegou à conclusão de que existem ao menos 3 critérios de uma aprendizagem mediada: intencionalidade-reciprocidade, transcendência e mediação de significado. Quando o mediador age com motivação ou intenção de modificar seu aprendiz, diz-se que ele opera com intencionalidade. Em outras palavras, quando o mediador apresenta uma tarefa, uma informação nova, articula elementos culturais, desperta a curiosidade de seu aprendiz em favor de um novo conceito, conduz seu mediado a pensar a realidade, ou quando o conscientiza dos fenômenos que o envolve; diz-se que o mediador operou com uma intenção. O que ele deseja, enfim, é tornar seu aprendiz aberto à mudança, tornando-o mais modificável cognitivamente.
Indissociavelmente a esse primeiro parâmetro, está a reciprocidade. Ela é a ativação da consciência do aprendiz ao fato de que ele está envolvido em um processo em que há intencionalidade. Além desse despertamento, o aprendiz responde (feedback) a essa intenção. Isso se sintetiza nas palavras de Paulo Freire (1977),8 no que ele chama de ação dialógica. O diálogo é uma permuta de consciência, que acontece quando: o educando responde aos estímulos do mediador, demonstra que capturou o processo e se conduz ou se deixa levar pelo processo de aprendizagem. A reciprocidade evidencia-se nas perguntas do aprendiz, nas provocações, quando discorda ou duvida, ou mesmo quando ele demonstra, com sua linguagem verbal ou corporal, que está aprendendo.
Por transcendência, compreende-se uma qualidade de interação intersubjetiva que ultrapasse o imediatismo espaço-temporal. Ou seja, o mediador retoma uma experiência do aprendiz e os princípios dela aprendidos, e aplica-os a outras possíveis circunstâncias (em outro tempo ou espaço), em que eles também possam operar. Por exemplo, quando um aluno descobre como comparar objetos e agrupá-los segundo critérios específicos (cor, forma e volume), aprende algo que vai além da tarefa dada em si, ele se apropria de leis e princípios que podem ser aplicados nas mais diversas situações da vida, que também exijam critérios de comparação, ou seja, uma atividade que transcende o imediatismo, o aqui-e-agora.
Finalmente, por mediação de significado, entende-se aquele elemento emocional e afetivo que envolve perguntas como: Com quê propósito? Com quê objetivo este fenômeno está aí? Qual a finalidade disto? Há mediação de significado quando algo ou alguma informação, deixa de ser simples conteúdo discursivo e é apropriado pelo sujeito, que lhe dá sentido e significado. Os conceitos adquiridos nesse processo tornam-se ferramentas ou peças na complexa estrutura dos esquemas mentais, transformando enfim, a relação daquele sujeito com a realidade. De certa forma, a mediação cultural, também é uma interação humanizadora, ela preserva a identidade e o senso de pertencimento a um grupo. Move-se pela lógica, mas também, pela afetividade. Porém, a ausência dela, pode ter fins desastrosos. A ausência de elementos culturais, responsáveis pela interação do aprendiz com o mundo, é nomeada por Feuerstein como, síndrome de privação cultural.
4. Síndrome de privação cultural
Segundo Gomes, a síndrome de privação cultural é definida por Reuven Feuerstein como:
A privação do indivíduo em sua própria cultura e, portanto, demarca uma falta de interações sociais significativas do indivíduo em seu ambiente cultural, provocando um retardo ou um impedimento do desenvolvimento. Mintsker [...] demonstra que tanto os fatores internos (endógenos), como a presença de síndromes, de lesões cerebrais, quanto os fatores externos (exógenos), como o êxodo rural não-planejado, a perda da identidade de determinado grupo social, podem provocar a privação cultural, já que em ambos os casos há uma visível redução ou falta de interações mediadas significativas. [...] Em suma, a falta de um mediador (ser humano), ou mediadores intencionados, que se interponha entre o organismo e o mundo e que filtre, organize e selecione os significados culturais, possibilitando ao indivíduo transcender os estímulos e as experiências de vida, provoca uma síndrome denominada por Feuerstein de síndrome de privação cultural. (GOMES, 2002, p. 69.)
A idéia básica é que, a ausência de um mediador que se interponha entre o organismo e os estímulos recebidos, ocasionará um tipo de síndrome, que impedirá esse sujeito (organismo) de assumir uma postura criteriosa ante a realidade. Ou seja, ele não terá instrumentos cognitivos, ou critério, para analisar, classificar, selecionar e articular as informações (ou estímulos) que recebe. Esses dados estarão disformes e sem significado algum, não passando de estímulos sensitivos; como observou Feuerstein quando trabalhou com jovens etíopes, judeus marroquinos e crianças sobreviventes da Shoá. Todos eles, haviam sofrido algum tipo de violência ou privação, que os impedia de interagir com os fenômenos ou códigos culturais com que se deparavam.
5. Sêfer mishelê, livro de provérbios
Em diversos momentos, percebe-se, na Bíblia Hebraica, a ênfase na necessidade de se preservar o conhecimento da Torá do Eterno. Cânticos (salmos) são dedicados a isso e biografias mencionam a queda e a ascensão de reis por causa da fidelidade ou transgressão aos mistvôt, mandamentos. Ou seja, o que não falta é material para evidenciar as raízes da transmissão cultural judaica. Porém, certamente os Provérbios de Salomão, ou simplesmente provérbios, está entre os livros que mais abordam conselhoscomportamentais, o que implica em um tipo de mediação ético-cultural. Segundo a tradição bíblica, Salomão ou Sh’lomo, destacou-se entre os “filhos de Israel” como o Rei mais sábio de toda história judaica, por promessa divina, como preservado no segundo livro de crônicas:
sabedoria e conhecimento te são dados; e também te darei riquezas, bens e honra como nenhum rei antes de ti teve, nem haverá depois de ti rei que tenha coisas semelhantes (2Cr 1:11).9
Sem mencionar os debates críticos sobre a autoria, Salomão ainda é tradicionalmente aceito como sendo o escritor de provérbios. Sem dúvida, a associação do rei sábio com textos éticos já consagrados pelos séculos de tradição hermenêutica é quase inevitável. O conteúdo de provérbios é amplo, abrange desde assuntos puramente intelectuais, até questões objetivas que envolvem o comportamento do sábio, chacham, na rotina diária. Sintetiza Scott (1997) que o livro de provérbios desenvolve-se desde:
purely intellectual observations about natural phenomena, to "secular" comments on how men behave and life's occurrences, to a final positive association of right conduct with true wisdom and religious faith.
6. Conceitos educacionais (mediacionais) nos provérbios do rei
Serão analisados, a partir desse momento, alguns textos de provérbios, tendo em vista evidenciar os critérios supra introduzidos como: a aprendizagem mediada e a transmissão cultural. Que, como foi demonstrado, são os responsáveis por introduzir uma visão de mundo intersubjetiva e um comportamento objetivo. Em Pv 1:1-8, em hebraico transliterado:
Mishlei sh’lomá vem-David Mélech Israel. Ladaat chôchmá umusar lehavin imrei viná. Lakachát musar haskel tsédek umishpát umeysarim. Latêt liftaim armá l’naar daat umzmá. Ysmá chacham veyosef lekách venavôn tachbulôt yqné. Lehavin mashál umlitsá divrei chochammim vechidotam. Yra’t YHVH reshit daat chochmá umusár evilim bazú. Sh’má bnei musar avícha veal-titsh torát imécha.
Em português:
Eis os provérbios de Salomão [Shelomo] ben [filho de] David, o rei de Israel, (que transmitem) palavras de sabedoria e (regras de) disciplina e as tornam compreensíveis; para que seja aceita a disciplina que provém de sabedoria, retidão, justiça e imparcialidade; para que o ingênuo adquira prudência e o jovem, conhecimento e discrição; para que o sábio possa ouvir e ampliar seus conhecimentos e, os que já os têm, receber conselhos sábios; para perceber o sentido das alegorias e dos simbolismos, e decifrar os enigmas dos sábios. O temor do Eterno é a base de todo conhecimento; os tolos (porém) desprezam tanto a sabedoria quanto a disciplina. Atenta, meu filho, à disciplina que te transmite teu pai, e não desprezes os ensinamentos de tua mãe (BÍBLIA, 2006, p. 681).
Há pelo menos três critérios básicos para se determinar um processo de aprendizagem mediada: intencionalidade-reciprocidade, transcendência e mediação de significado. Esses elementos estarão presentes em alguns dos provérbios de Salomão? Há intenção educativa nestes provérbios? De início, evidencia-se a intencionalidade educacional do autor. Observa-se isso pela presença da preposição hebraica, representada pela letra lâmed,10 inferindo propósito, destino, objetivo e intenção. Ela está associada à palavra daát, cuja raiz é yadá; um verbo com o sentido de “conhecer”, ou mais profundamente, “desvendar” ou “desnudar”; por isso, esporadicamente, a palavra ocorre associada à intimidade sexual, como em Gn 4:1, quando Adão “conheceu” a Eva. Assim, a intenção do autor é permitir ou conduzir (na voz ativa, qal) seus ouvintes à sabedoria, chôchmá.
A sabedoria é tema central em Provérbios, nenhum outro livro da Bíblia possui tantas vezes a presença dessa palavra. Dos seus 915 versos, 41 tem ao menos uma ocorrência do substantivo. Diferentemente do pensamento platônico, que faz uso termo sofia11 com conotação doutrinária ou à dimensão das idéias (do pensamento per si), chôchmá tem conotação prática, sendo diversas vezes associada a alguma habilidade técnica específica12 ou à experiência.
No pensamento hebraico, a sabedoria está profundamente vinculada a um tipo de práxis comportamental, e não somente ao acúmulo de informações. Ser sábio é se comportar habilmente e ter uma ética condizente com a vida. Os conceitos aprendidos precisam transcender as idéias em si e alcançar a realidade, como foi dito pelo Rabi Hanina Ben Dossá,13 no Capítulo 3, Mishná 12 de Pirkê Avôt: “[...] aqueles cujas boas obras excedem a sua ciência, mantêm a sua ciência; mas se a sua ciência é superior às suas virtudes, aquela não se manterá.”14
A sabedoria seria um tipo de terceiro excluído, que supera o dualismo teoria-prática. Para a tradição hebraica, a sabedoria de uma pessoa é determinada por sua eficiência comportamental e por sua habilidade em lidar de forma prática com as demandas da realidade. Provérbios também se destina a tornar conhecida a “disciplina”, em hebraico musar. Palavra essa, derivada de yasar, que, incluindo suas variáveis, ocorre 9 vezes na Toráe 35 vezes nos Provérbios de Salomão. Na maioria das ocorrências bíblicas, o vocábulo ocorre com o sentido de “punição”, “correção física” ou “castigo”. Porém, nesse texto, incorpora-se, também, à idéia de “regras de disciplina” ou “princípios éticos”. O mesmo sentido preserva-se no Salmo 16, verso 7, que usa a rima ysruni chíliotái traduzida como:“meus rins me disciplinam”. Na poética hebraica, a palavra “rins” é usada metaforicamente para se referir àquela dimensão subjetiva e intrapsicológica do homem. Por isso, o que o salmista pode ter dito, é que seu comportamento era regulado (disciplinado), por sua subjetividade ou pelos tabus impostos por sua consciência e reflexão.
Nesse ponto, a disciplina tem uma função educacional, pode ser denominada mediação de regulação e controle do comportamento (FEUERSTEIN, 2002b), que seria a autor-regulação do sujeito ante a inibição e a iniciativa. A inibição, seria o tabu, o limite que impede que o sujeito se comporte de forma inadequada à sua estrutura ética. No outro extremo está a iniciativa, um tipo de provocação externa (de outros sujeitos ou outros estímulos), que conduzem o sujeito a algum comportamento que ele entende ser psicologicamente ou socialmente relevante. A regulação e controle do comportamento é exatamente a capacidade ulterior e flexível, que circula dialeticamente entre a auto-restrição e a auto-iniciativa. O resultado é o encaminhamento do indivíduo à reflexão que:
[...] it provides the necessary feedback for decision-making base on the appropriateness of certain behaviors, their timing, pace and suitability. Mediation of regulation of behavior creates the cognitive prerequisites to enhance the individual’s ability to adopt a reasoned mode of behaving. Self-control becomes possible through the use of cognitive components related to the specific activity rather than the result of an over-generalized taboo or an inhibition generated by a historical experience (FEURESTEIN, 2002a, p. 77-78).
Sinteticamente, a idéia de disciplina como auto-regulação, está no uso de yasar com em 1 Cr 15:22. Esse texto se refere ao regente de cânticos da Casa de David, chamado Chenaniáhu, Quenanias. Segundo o narrado, ele era o responsável por “dirigir”, yasor,os cânticos, a idéia é de “organizar”, “conduzir” ou “reger”. Essas variações, levantam a hipótese de que nas Escrituras Hebraicas há um conceito amplo de “disciplina”, compreendida dentro do modelo de mediação, como um comportamento auto-regulado. A palavra disciplina no pensamento hebraico conduz o intérprete inevitavelmente à idéia de “equilíbrio”.
O texto prossegue: lehavin imrei viná. A sentença começa com lehavin, que por ser um verbo com função causativa, hifil, pode ser traduzido pelas seguintes formas: “para entender” ou “para provocar o entendimento”. Derivado de biná, transforma o verso em um poema, para não dizer uma música, “rimando” visualmente com viná, que ocorre no final do verso. Vale destacar, ainda, que biná deriva de uma raiz primitiva, a conhecida preposição bein; que geralmente ocorre em forma de um “b”, bêt, que, em português, equivale a preposição “em”. Bein,sintaticamente, tem função locativa, traduzida muitas vezes como: “entre”, “no meio de”, “inter”, “intra”. Sendo assim, qual é a relação entre biná, entendimento, e sua raiz primitiva bein?
Biná, entendimento, em sentido amplo, pode ser definido como um tipo de discernimento, ou seja, uma atitude relacional e comparativa essencialmente classificatória. Um tipo de clareza perceptiva, que separa dados relevantes e irrelevantes. Seu correspondente árabe é a palavra bâna, parente semita de biná, compreendida com o sentido de “clarear”, o que possibilita inferir que, “entendimento” no pensamento hebraico-semita, também significa clareza intelectual. Tal conceito hebraico se enquadraria perfeitamente ao que, segundo GOMES (2002), Feuerstein chamaria de “percepção clara e precisa”; uma função cognitiva que é:
[...] a responsável pela absorção dos detalhes característicos dos objetos. Os estímulos neles existentes devem ser distinguidos em seus detalhes fundamentais, sejam seus contornos em três dimensões, suas formas específicas, seu tamanho, seu brilho, suas cores, enfim, suas propriedades, seus atributos, suas qualidades específicas. [...] sua necessidade torna-se vital especialmente nas atividades que requerem precisão e análise apurada. Imaginemos, para finalizar, um degustador de vinho – ele deve perceber os detalhes com precisão para analisar com profundidade os elementos da bebida e verificar sua qualidade (p. 114).
Outra expressão interessante é mashal, variável de mishol que significa inicialmente “comparar” ou “se tornar como”. Dessa palavra derivou-se a expressão “provérbios”, que também pode ser traduzida como parábola. Ao menos, é como ocorre na Septuaginta (LXX). É importante mencionar que o conceito de parábola,nesse caso, remete a idéia da parábola côncava da matemática, que indica um movimento que parte do particular, nas abscissas, varia em altura até seu ponto universal (ponto máximo nas ordenadas) e retorna a outro ponto particular, novamente nas abscissas. Esse movimento gráfico serve para ilustrar o princípio pedagógico-cognitivo que uma parábola ou provérbio pode provocar em seu interlocutor. Quando um mediador se apropria de uma experiência particular de seu aprendiz e aplica os princípios dessa experiência a outras situações que exijam esses mesmos princípios, ou regras, ocorre a transcendência. Essa é a funcionalidade didática de provérbios, conduzir o discípulo para além da lição dada.
O outro sentido de mashal, “tornar-se outro”, remete ao conceito de descentralização que:
[...] caracteriza-se como a capacidade da mente para considerar a presença do outro e a expressão de diversos pontos de vistas sobre um mesmo evento: ser sujeito e “ser o outro” em uma relação de reversibilidade contínua. Seu contrário a comunicação egocêntrica, marca uma dificuldade ou incapacidade em considerar diversos pontos de vista sobre qualquer situação (GOMES, 2002, p. 129).
A descentralização é um exercício psicológico e cognitivo presente em diversas manifestações culturais judaicas como: as agadot, os contos hassídicos e as cantigas judaicas. A parábola estimula o processo semiótico-virtual e o deslocamento arquétipo, freqüentemente presente em culturas monoteístas desprovidas de representações iconográficas, como o judaísmo.
Considerações finais
Provérbios de Salomão está permeado de terminologias educativas, o que evidencia as profundas raízes da educação hebraica. Educar em sentido hebraico, seria preparar para a vida, conduzir o sujeito às ferramentas necessárias para que ele interaja com o mundo, e elabore uma ética em sua autonomia. Virtudes que o protejam e que lhe dêem condições de responder de forma eficiente às demandas de sua existência. É possível concluir, assim, que por suas características, seu riquíssimo repertório lingüístico, esse livro bíblico congira-se como um excelente instrumento de mediação cultural e de transmissão de valores éticos. Ele conduz o leitor a silogismos e trocadilhos de uma fertilidade intelectual formidável para conduzir educandos à sabedoria.
Reuven Feuerstein e sua equipe de pesquisadores, vêm desenvolvendo investigações importantes para a educação, e ele tem sido reconhecido como um dos maiores educadores da modernidade. Porém, o que realmente o conduziu a produzir tais saberes, tem raízes mais profundas que estão além de sua formação científica. Sem dúvida, a Bíblia Hebraica e a tradição cultural do judaísmo foram os grandes responsáveis pela sensibilidade educacional e teórica de Reuven Feuerstein, como ele mesmo faz questão de evidenciar em suas obras e nas obras publicadas por seu instituto em Israel que o foco particular no Judaísmo pode servir como um exemplo de uma das formas nas quais a experiência da aprendizagem mediada serve para preservar e transmitir cultura. Isto pode assim, ajudar a mostrar o caminho para o estudo de princípios similares em diversas culturas e experiências humanas (FEUERSTEIN, 2002b, p. 13.).


***
* Emerson Santos Amaral é aluno do Curso de Letras da Faculdade de Letras da UFMG.
** Igor da Silva Miguel é aluno do Curso de Educação da UEMG e pesquisador do Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI), desenvolvido por Reuven Feuerstein ICELP/Jerusalém/Israel.
Notas
1 Shoá: “Palabra hebrea que connota um cataclismo destructivo. Fue utilizada por primera vez para designar el extermínio de los judíos europeos em um folleto publicado em Jerusalén em 1940 por el Comitê Unido de Ayuda a los Judíos em Polonia” (ROBERT, 2002, p. 449).
2 An interaction marked by a culturally determined need for each generation to shape the structure of behavior of successive generation to shape the structure of behavior of successive generations by transmitting to them the past, the present and the future dimensions of their culture.
3 Expressão usada por Imanuel Kant para se referir à visão de mundo ou cosmovisão.
4 BÍBLIA, 2006.
5 The principal responsibility that rested upon parents was train their children for their life as members of the Community of Israel. The ideal aimed at was to forge them into secure links in the chain of continuity so that the religious heritage which had unimpaired to the generation which would follow. The indispensable requisite for such a consummation was the instilling into them of a knowledge of Torah.
6 FRIDLIN, 1997.
7 Experiência da Aprendizagem Mediada (EAM).
8 Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido, desenvolve uma reflexão filosófica sobre o diálogo como agenciador de uma pedagogia sem opressores. Essa abordagem deve-se a Martin Buber, em sua epistemologia do diálogo desenvolvida em suas obras clássicas como The Knowledge of Man (1965) e I and Thou (1937).
9 Utilizamos para as citações da Bíblia, salvo indicação ao contrário, BÍBLIA, 2006.
10 Em hebraico, na maioria dos casos, as preposições são aglutinadas, ou seja, estão ligadas graficamente às palavras que as sucedem. A letra lâmed (indicada) tem a função da preposição “para” ou “a”.
11 Ver verbete sofia em SCOTT, 1968.
12 Para os usos do termo chochmá, ver: Ex 28:3; 31:3-6 e Is 10:13.
13 Haniná Ben Dossá viveu na região da Galiléia durante o I século da era comum. Ele foi um dos tanaim, um dos sábios do período de produção das mishnaiôt (lei oral).
14 Citação de Pirkê Avôt em FRIDLIN, 1997.
Referências
BEREZIN, Rifka. Dicionário Hebraico-Português.São Paulo: Edusp, 2003.
BÍBLIA HEBRAICA. Baseada no hebraico e à luz do talmud e das fontes judaicas. São Paulo: Sefer, 2006.
COHEN, A. Everyman’s Talmud. New York: Schocken Books, 1975.
FEUERSTEIN, Reuven. Instrumental Enrichment:an intervention program for cognitive modifiability. Glenview (Illinois): Scott, Foresman and Company, 1980.
_____; KLEIN, P.; TANNENBAUM, A. Mediated Learning Experience: theoretical, psychosocial, and learning implications. Tel Aviv/London: Freund, 1991.
_____; FALIK, L.H.; FEUERSTEIN, R. S.; RAND, Y. The Dynamic Assessment of Cognitive Modifiability:the learning propensity assessment device: theory, instruments and techniques. Jerusalem: The ICELP Press, 2002a.
FEUERSTEIN, Shmuel. Biblical and Talmudic Antecedents of Mediated Learning Experience Theory:educational and didactic implications for inter-generational cultural transmission. Jerusalem: The ICELP Press, 2002b.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
FRIDLIN, Jairo. (org.). Sidur Completo: com tradução e transliteração. São Paulo: Sefer, 1997.
GOMES, C. M. A. Feuerstein e a Construção Mediada do Conhecimento.Porto Alegre: Artmed, 2002.
HOLY SCRIPTURES. Cathedral City, CA: Jewish Publication Society, 1917.
PIAGET, J. Epistemologia Genética.Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1990.
ROBERT, R.; SPECTOR, S. (reds.). Encyclopedia of the Holocaust. Jerusalem: The Jerusalem Publishing House Ltd., 2000.
SCOTT, R. B. Y. Book of proverbs. In: Encyclopaedia Judaica. Version 1.0. Israel: Judaica Multimedia, 1997, 1 CD-ROM.
SCOTT, R.; LIDDELL, H. G. A Greek-English Lexicon. Oxford: At The Clarendon, 1968.
VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

Trabalho e escravidão no Judaísmo bíblico

Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG - Volume 1, n. 2 – março, 2008

Trabalho e escravidão no Judaísmo bíblico

Sergio Alberto Feldman*

1. Fontes e delimitação

O problema das fontes bíblicas é vasta e complexa. Tratando-se de um texto considerado sagrado para duas religiões (Judaísmo e Cristianismo) e respeitado como importante pela terceira crença monoteísta, ou seja, o Islã, torna-se bastante complicada a tarefa de ler e analisar essas fontes sob uma ótica histórica. A autoria do texto de acordo com a tradição judaico-cristã nos remeteria à Revelação Divina, no caso do Pentateuco ou divinamente inspirada, no caso dos demais livros. A Palavra de Deus não é dada a análises e a questionamentos, ainda mais num mundo grassado por ondas fundamentalistas e radicais.

Apesar disso, e talvez até mais motivados pela onda fundamentalista, ousamos tentar perceber e identificar a presença de seres humanos na redação do texto e na sua edição, e assim nos permitimos ousar tentar analisar a sociedade hebraica no período bíblico e no período do Judaísmo Tardio, no qual se edita e conclui o texto bíblico. Trata-se de um vasto período e de uma variedade de contextos e condições, que nos permitirão apenas tecer considerações gerais, sob o objeto de nosso estudo, ou seja, os conceitos de trabalho e de escravidão.

A Bíblia é compreendida por nós como uma coletânea de diversos autores e que, muitas vezes, foi compilada e editada por outros, que não eram aqueles que teriam sido “iluminados” pela Revelação Divina. Assim, o compilador ou escriba podia alterar o texto original e adaptá-lo a novas realidades e contextos. Isso torna a tarefa do historiador árdua e generalizante. Não nos propomos a fazer um trabalho monográfico sobre a concepção do trabalho e da escravidão sob esse ou aquele autor, livro ou período. Nossa proposta é articular uma visão ampla e geral e dimensionar a questão, ainda que nos concentremos no período dos profetas, faremos o essencial de nossa análise focados nas obras desse período ou em obras redigidas e consideradas pela tradição como sendo anteriores, tal como o livro do Deuteronômio.

O uso de uma coletânea multifacetada e de múltiplos autores e editores, como é a Bíblia Hebraica, propicia uma visão geral de uma sociedade que se estabeleceu na região ocidental da Ásia, entre o Egito antigo e a Mesopotâmia, no período que vai do final do segundo milênio antes da Era Comum. O foco central é o denominado Período dos Dois reinos (entre c. 933 a 586 a. E. C.) ainda que os textos tenham sido redigidos no período posterior ao Cativeiro da Babilônia (Galut Bavel), no início do Período do Segundo Templo. Trata-se, portanto de cerca de meio milênio, uma extensa cronologia.

Vale ressalvar, que mesmo se tratando de um estudo de legislação e costumes, temos que enfatizar que nos concentramos na análise de valores e princípios sociais de média e longa duração. O contexto se altera, mas sobrevive na consciência coletiva a importância destes princípios jurídico-teológicos: os judeus após o Cativeiro e o primeiro exílio conceberam a Lei e o Pacto como o sentido da História e a razão de sua existência. Obedecer a Lei seria mais do que ordenar a sociedade; seria o direcionamento do mundo à Redenção e ao sentido teleológico da História. As leis bíblicas serão reinterpretadas e ampliadas através da Lei Oral (Mishná e Guemará). Lidas e relidas, discutidas e analisadas nos sentidos literais ou alegóricos, gerarão posições por vezes antagônicas com seu contexto gerador, mas servirão de farol para Judaísmo e para o Cristianismo. Esses princípios terão influência na formação de muitos dos valores e princípios da sociedade ocidental em relação ao trabalho e a escravidão, até nossos dias.

2. Enfoque historiográfico

Estamos cientes de que os estudos bíblicos sofrem de uma forte influência dos enfoques cristãos ou judaicos. Uma grande quantidade de seminários teológicos e de universidades ligadas a fundações patrocinadas por setores da Cristandade ou do Judaísmo investe esforços em buscar através da Arqueologia, da pesquisa filológica e da “Ciência”, base de elementos para fundamentar suas pretensas verdades, antigas ou novas.

O best seller denominado A bíblia tinha razão, de Werner Keeler, foi editado e reeditado, por décadas e segue sendo muito lido e comentado. Uma obra crítica foi editada em inglês e traduzida em português sob o titulo A bíblia não tinha razão, de dos pesquisadores israelenses Finkelstein e Silberman, mas não teve e acreditamos que nunca terá nem um décimo do alcance e do sucesso editorial da obra antecessora. (FINKELSTEIN; SILBERMAN, 2003).1 Isso por que seu interesse é apenas científico e não serve para provar teorias e verdades aceitas por alguma(s) das crenças monoteístas. O que prevalece ainda em nossos dias são as crenças tradicionais de longa e média duração e os valores aceitos pelas grandes correntes religiosas. Apesar disso, remaremos contra a corrente, ainda que de maneira limitada e breve, e teceremos análises para ampliar a reflexão sobre o tema do trabalho e da escravidão e suas permanências e continuidades. Não acreditamos em objetividade plena, mas tentaremos fazer um foco historiográfico e evitar as sendas da teologia.

3. Como ler o texto bíblico?

Há inúmeras maneiras de se abordar o texto bíblico. Há formas judaicas e cristãs; há óticas fundamentalistas e há óticas que tentam adaptar o texto à realidade dos tempos, para utilizá-lo como referência para propagação de valores éticos e morais.

A História recebeu aportes interessantes sobre o tema com as descobertas arqueológicas dos últimos dois séculos. A arqueologia foi usada para desvendar certas questões e enigmas, mas por vezes serviu para lançar algumas espécies de “cortinas de fumaça”, ao provar teses pouco científicas, e ao ignorar a linguagem alegórica e os mitos presentes no texto. Não sendo esta a nossa intenção, apenas fazemos menção da complexidade da análise do texto e do contexto bíblico.

A filosofia moderna trouxe um aporte novo através de um personagem controverso, brilhante e dotado de uma mente inquieta. Baruch Spinoza, o filósofo judeu que foi excomungado da sua comunidade em pleno séc. XVII e transitou sob constante pressão e isolamento entre os círculos intelectuais europeus, devido a sua crítica à Bíblia, no Tratado Teológico Político, no qual admite que haja uma clara percepção do uso do texto sagrado para finalidades de poder e de dominação social. A partir de Spinoza, se inicia uma seqüência de releituras modernas e contemporâneas da Bíblia que abrem uma diversidade de métodos e modelos interpretativos.

Uma das muitas maneiras de ler e interpretar, o texto bíblico visualiza uma seqüência de pactos imbricados através do texto e insinuando uma continuidade. Para os judeus o Pacto de Abraão e demais patriarcas; de Moisés e do povo que presenciou a Entrega da Lei; de David e seus sucessores. Para os cristãos, a renovação do Pacto em novos termos a partir da vinda de Jesus e sua transferência para os “gentios” e para a Igreja. O texto permite tal (tais) interpretação (interpretações).

Sendo o livro escrito por diversos autores em diversas épocas, não se pode dizer que esta sucessão de pactos seja intencional ou premeditada. Seria também impreciso dizer que Deus os ordenou numa seqüência lógica e teve a intenção de ditá-los assim. Há possibilidade que os editores do texto da Bíblia hebraica (ou Antigo Testamento, numa linguagem cristã), tenham ordenado e direcionado alguns trechos para criar no seio desta obra coletiva, uma ordenada e crescente seqüência de pactos.

A concepção de mundo vigente no período do segundo Templo (536 a. E. C. – 70 d. E.C.) e mais precisamente nos séculos iniciais desse período, foram fundamentais para essa seqüência ser ordenada. Os judeus dessa época acreditavam que a destruição do primeiro Templo e o cativeiro ou o exílio da Babilônia (Galut Bavel), seria uma advertência divina, elaborada através das palavras dos profetas, no período anterior ao Cativeiro da Babilônia, que deviam de servir de ensinamento ao povo na segunda oportunidade que Deus lhes dava.

Assim, a compreensão dos elementos centrais do livro seria a seguinte: a) o Pacto ou os pactos com os Patriarcas, Moisés e com a casa de David; b) as advertências dos Profetas e a sua consecução com o exílio; c) o sentido da História e o papel do povo judeu na obtenção da Redenção e da sociedade do futuro. Daí a necessidade de entender os pactos como parte de um projeto divino, de avanço e aproximação a um pretenso tempo messiânico.

Passemos à análise dos pactos e sua influência na elaboração das concepções vetero-testamentárias. O primeiro é um pacto entre Deus e a família patriarcal, seja na pessoa de Abraão, seja na pessoa de Isaac ou Jacob. Gênesis está repleto de Revelações e afirmações divinas, de que os descendentes dos Patriarcas seriam os herdeiros do Pacto, da posse da terra de Canaã e de uma relação privilegiada com Deus.

Na seqüência, Moisés recebe confirmações que ampliam a dimensão do pacto: do clã dos patriarcas às tribos esta promessa se amplia. A etapa final desse segundo pacto será a universalização da Redenção a todos os povos e a humanidade como um todo, que se consolida na palavra de alguns dos profetas clássicos. O texto editado se reescreve e adapta, de forma coerente, e a promessa feita a Abraão se amplia à humanidade. Na nossa percepção há uma clara reordenação dos conceitos para ampliar o “círculo” e o alcance da Redenção, do clã às tribos, destas ao reino e deste á humanidade. Os autores podem ter sido tanto os profetas quanto os escribas da geração pós-exílio.

Um pacto intermediário serve de ligação entre os dois pactos citados: seria um pacto entre a monarquia israelita e Deus. Sendo inicialmente um pacto de “proteção” e sacralização da casa real e da instituição monárquica, tende a se mesclar no contexto do plano divino da história e se tornar, um elemento catalizador de determinadas funções entre as quais a de executor da Redenção do povo e da humanidade como um todo. (FELDMAN, 2006) O rei sagrado se torna o Salvador. A casa de David irá gerar o Redentor.

Sendo assim o foco do livro não seria história e tampouco a vida cotidiana. Seria a escolha e a consecução de um pacto entre Deus e o Povo Eleito. Ao utilizarmos o texto da Bíblia hebraica ou o Antigo Testamento (AT), usaremos de partes que permitem analisar os valores sociais descritos no texto. Como era vista a questão do trabalho? Como a sociedade se relacionava com o tema da escravidão? Não poderemos nos distanciar de certas idealizações, cientes de que a realidade por vezes, é mais complexa do que leis e valores inseridos num texto sagrado. Faremos uso de fontes que permitam tecer análises para conectar a realidade com a idealização do escriba ou do narrador.2

4. O conceito de trabalho

A visão do trabalho no texto bíblico tende a ser idealizada pelos autores do texto, mas mantém certa dose de coerência com os valores sociais aceitos e praticados pela sociedade. O trecho inicial do Pentateuco, inserido nos capítulos iniciais do Gênesis, pode ser interpretado através de uma diversidade de maneiras. O castigo pela desobediência humana ao provar do fruto do conhecimento do bem e do mal, serve de argumento errôneo, em nossa opinião, para fundamentar teses de que o trabalho é concebido de maneira negativa. O texto aparenta ser claro: “[...] maldita é a terra por tua causa: com fadiga comerás dela todos os dias de tua vida [...]” (Gênesis, c. 3, v. 17).3 Ou seja, o trabalho é um castigo e, portanto algo desagradável. Seria correto?

Isso ocorre quando não se amplia o olhar para o texto como um conjunto, ao não se adicionar ao texto do capítulo terceiro, no qual é descrita a queda, a idealização do trabalho no Jardim de Éden, descrito no capítulo anterior. Após ser criado, Adão é colocado inicialmente nesse local e nele é que se deve buscar a definição inicial do conceito de trabalho. A crítica bíblica admite que o primeiro capítulo de Gênesis possa ser de outro autor, quando comparado com o segundo e o terceiro capítulos. Assim sendo, deve se ver as duas descrições de trabalho como dois momentos da historia ou da geografia, do tempo ou do espaço bíblico.

O local do Éden é descrito como aprazível e fértil, sendo repleto de árvores esplendorosas que Adão deveria cultivar e das quais poderia se utilizar, restrição feita às duas arvores que lhe eram vetadas: a do conhecimento do bem e do mal e a da vida. O mito judaico da Criação define que o homem estava em harmonia com a natureza e integrado dentro dela. Era uma parte indissociável desta, pois não tinha ainda definido um dos atributos humanos fundamentais: o conhecimento do bem e do mal.

Adão trabalhava: era o administrador e usuário do pomar do jardim de Éden. Diz o texto: “E tomou o Eterno Deus o homem e colocou-o no Jardim de Éden, para o cultivar e guardar”. (Gênesis, c. 2, v. 15) O termo hebraico é leavda uleshamra [se trata dos verbos laavod (trabalhar) e lishmor (guardar ou cuidar)]. Errôneo seria interpretar o texto como se o Homem nada fazia e estava alheio a funções e deveres. Trabalhar é algo prezado e valorizado e “divinamente” criado.

Evidencia-se, no texto bíblico, em seu arcabouço mítico, uma clara diferenciação entre as áreas desérticas e semi-desérticas do Oriente Próximo, na qual habitavam os hebreus e outros povos semitas da periferia e as cobiçadas terras a margem dos rios caudalosos, citados nos versículos anteriores que fazem menção dos rios do Éden, tendo entre eles o Tigre e o Eufrates. (Gn 2:14) O sonho do nômade se configura no Jardim de Éden: jardins regados por rios caudalosos, férteis e abundantes. Viver às margens de rios e cercado por pomares era o sonho de qualquer nômade. As tribos hebréias primitivas devem ter sido inicialmente alocadas na periferia das civilizações hidráulicas do Oriente Próximo, e viver no deserto seria uma espécie de castigo divino. No mito da Criação, há o sentido do retorno ao Éden, figurando um passado idílico e um futuro almejado. Esse é um dos eixos condutores da concepção de história dos autores do texto. O trabalho seguirá no futuro, mas de maneira agradável, plena e criativa. O trabalho não seria, assim, concebido como um castigo em si. A terra desértica, esta sim, seria configurada como uma pena ou sofrimento. Entre os inúmeros conceitos de Redenção descritos pelos Profetas há diversos que fazem alegorias da “água jorrando no deserto” e redimindo as terras secas e não férteis. Um exemplo dessa referência pode ser encontrado em Isaías.4

A maldição no texto se refere, pois, não ao trabalho em si, mas ao extenuante esforço que seria requerido, desde então, para extrair o pão da terra árida e espinhosa. Há uma explícita referência a realidade das tribos nômades e semi-nômades que estavam em processo de sedentarização na periferia do Fértil Crescente.

A concepção cósmica e mística do trabalho permite sua idealização, que a tradição judaica absorveu e utilizou na ordenação da sociedade de maneira a estimular os fiéis a serem produtivos. Há uma enorme quantidade de versículos para apoiar essa posição. Vejamos alguns, frisando que se trata de alegorias e figuras que espelham a idealização do trabalho, na sociedade: Deus criou o Mundo em seis dias no sétimo descansou. Essa afirmação se repete em vários livros e trechos. Ao final do relato da Criação (Gn 2:2),5 o narrador usa o termo “sua obra que fizera” (melachto asher asa), tendo o vocábulo melachá, o significado de trabalho. Isso se repete adiante quando o quarto mandamento é entregue na sua versão inicial em Êxodo: “[...] no sétimo dia [...] não farás nenhum trabalho (melachá) [...] por que, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra [...]” (Ex 20:11).6

Nos Salmos ocorre a repetição dessa temática que aparece reiteradamente: “Quando contemplo os teus céus, obra de teus dedos [...]”. (Sl 8:4 4).7 O salmista antropomorfiza Deus e se esquece de que a Criação foi feita através da palavra e enfatiza a ação divina através das mãos. (GREENBERG, 1981, p. 170-172).8

O trabalho do artesão é, alegoricamente, transferido a Deus. Deus é o artesão do Homem, pois como o oleiro faz o vaso, Deus cria o Homem: “[...] tu és nosso Pai, nós somos o barro, e Tu, o nosso oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos”. (Is 64:8).9 O profeta se fundamenta na descrição do Deus-artesão que molda o Homem do barro em Gênesis. (Gn 2:7) O trabalho divino até a elaboração do homem foi feito através do Verbo divino, mas ao criar o Homem faz a moldagem do Homem, como um artesão. Trabalho se torna ação divina, portanto algo digno de respeito e um dever para os humanos.

Os arquétipos bíblicos de heróis ancestrais sejam de personagens míticas seja de personagens mais embasados na história do povo, agregam entre suas qualidades, certos dons de trabalhar e fazê-lo com esmero e dedicação. Alguns exemplos desta afirmação. Os patriarcas hebreus são pastores e envolvidos em sua labuta. As habilidades de Jacob são evidentes, pois chega a iludir seu sogro Labão que tenta tirar proveito do genro talentoso e trabalhador. (Gn 30:27) Trata-se de uma narrativa na qual se unem certa dose de habilidade com um poder que extrapola a razão: um conhecimento da reprodução das ovelhas, senão mágico, pelo menos desconhecido.

Outro pastor dedicado deve ter sido Moisés, que apascentava as ovelhas de seu sogro Jetro (Ex 3:1) ao se deparar com a divina presença no Monte Sinai (Horeb), estava na busca de uma ovelha desgarrada. A tradição o relaciona como um “pastor” de seu povo, sendo esta denominação criadora de referências posteriores.

O mesmo ocorre com David, o pastor de Belém, que aprendeu suas habilidades com a funda ao enfrentar ursos e leões em defesa de seu rebanho. (1Sm 7:34-36) Os Salmos atribuídos a David, ainda que a crítica bíblica admita dúvidas dessa autoria ou de todo o conjunto, descrevem David como um pastor.

Gedeão é intimado pelo anjo de Deus a agir e libertar seu povo dos invasores nômades midianitas (e/ou amalequitas) quando estava em plena atividade tratando de retirar as sementes do trigo e esconder sua colheita do saque dos invasores. (Jz 6:11)

De maneira não simbólica o rei Saul é encontrado pelos guerreiros que vem lhe pedir socorro contra os amonitas que ameaçam a cidade de Yavesh (Jabes) da tribo de Gilead (Gad) quando “[...] vinha dos campos atrás dos bois [...]”. (1Sm 11:5) Estar atrás dos bois significa que ele arava sua terra. O rei recém escolhido não deixava de fazer os serviços na terra da sua família. É evidente que a transição da sociedade tradicional para uma sociedade plenamente sedentária e hierarquizada não se completara. Ninguém descreve Salomão no campo e tampouco algum dos reis de Judá ou Israel. Mas os personagens tradicionais servem para inspirar modelos de conduta e valores que se quer manter ou resgatar, ou seja, o trabalho se insere nos valores que a sociedade tradicional almeja manter e perpetuar.

A exaltação do trabalho segue através de inúmeros textos da Bíblia hebraica. Nos textos da sabedoria e nos hinos sacros percebe-se que este valor social do trabalho é exaltado. Nos Salmos e em Provérbios encontramos citações que ora exaltam o trabalho, ora enfatizam sua superioridade diante da retórica e do saber inútil: “Em todo trabalho há proveito, mas a palavra dos lábios só encaminha para a pobreza”. (Pr 14:23)

Há diversas regras de proteção social ao trabalhador. Os jornaleiros (assalariados por jornada) que eram homens livres sem terras, serviam nos campos pela Lei mosaica, deveriam ser remunerados ao final de cada jornada, “[...] porquanto pobre é [...]”. (Dt 2415)

5. A escravidão: contradições e polêmicas

A escravidão no texto bíblico oferece-nos talvez uma das temáticas mais contraditórias, entre as existentes nessa coletânea. Os diversos autores refletem com bastante clareza uma aguda contradição. A escravidão é ao mesmo tempo criticada, por vezes severamente condenada, mas segue sendo praticada durante todo o período. Tentaremos analisar essa contradição e buscar a definição de alguns conceitos.

Um dos pilares do Antigo Testamento seria a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. O Judaísmo admite a enorme relevância desse evento admitindo, na segunda versão do Decálogo, no quarto Mandamento, que a libertação do povo de Israel, do cativeiro no Egito dos faraós, seja o motivo do descanso sabático. (Dt 5:15) Sendo o Shabat ou sábado, na concepção judaica, um dos pilares do pacto com Deus, haveria aqui uma evidente alusão idealizada, de que a escravidão seria uma necessidade humana e não uma vontade de Deus.

O Shabat é o tempo idealizado do passado e o tempo desejado do futuro: no final dos Tempos, o Homem e a natureza tenderiam a se reconciliar (FROMM, 1970, p. 101).10 A menção do direito ao descanso semanal, pelo escravo, que é explícita no quarto mandamento deuteronômico, alude a um momento presente, pois ordena que lhe seja dado o mesmo descanso do homem livre, do senhor, de sua esposa, de seus filhos e até de seus animais de carga e de tração. No Shabat, o tempo futuro, se concretiza no presente.

A nossa análise do texto da Bíblia Hebraica, leva-nos a perceber que uma das interpretações possíveis do sentido do texto, como um conjunto, seria o Pacto de Deus com o povo de Israel. No trecho inicial, fizemos uma breve menção dessa opção interpretativa e nela prosseguiremos. Nesse pacto temos etapas e regras determinadas. Tentaremos delineá-las, de maneira sincrônica, mesmo estando cientes de que sua escrita não foi elaborada assim: 1) a etapa dos Patriarcas, lendária e remota, na qual líderes tribais selam um pacto com o Deus único. Os receptores prometem fidelidade, negar a idolatria e sempre cultuar o verdadeiro Deus. Em troca, receberiam a Terra Prometida e seriam protegidos por Deus. Isso fica adiado por quatrocentos anos devido a escravidão no Egito; 2) a etapa do Êxodo do Egito, na qual o Deus libertador os redime do cativeiro, leva-os a peregrinação no deserto por quarenta anos e lhes outorga uma Lei. O código mosaico torna-se uma referencia do pacto. Assim, respeitar a Deus, servi-lo e seguir sua Lei. Se o povo respeitar a Deus e a sua Lei, seguiria sendo agraciado com sua proteção; 3) a etapa da conquista de Canaã, sob Josué e os Juizes. Nesse momento uma das ênfases, seria a entrega da terra e sua divisão de maneira justa e adequada a todas as tribos, para que tivessem posses e condições de retirar o sustento de suas terras. A distribuição é feita, nas palavras do escriba, por sorteio e por intervenção divina. Mas o proprietário da terra, segue sendo o Deus que lhes outorgou o direito de usufruto. Thiel admite que “[...] acima da soberania política das tribos e o real direito de uso do solo por parte dos clãs e famílias: o direito de propriedade de Javé (grifo do autor) sobre a terra de seu povo”. (1993, p. 68) Isso se fundamenta num versículo da Bíblia em que Deus diz que “[...] a terra não se venderá em perpetuidade, por que a terra é minha, pois vós sois estrangeiros e peregrinos comigo”. (Lv 25:23) Algumas das condições para a posse da terra seriam o respeito ao Pacto, a negação absoluta da idolatria, a prática da Lei e da justiça social. O próprio conceito de posse da terra está imbuído de um de justiça social, típico de sociedades primitivas ou como conceitua a historiografia marxista, de uma comuna primitiva. Tudo isso estaria sacralizado pelo pacto com Deus; 4) a etapa dos Reis e Profetas é multifacetada, se prolongando ora em unidade, ora em dois reinos. Nela, o Estado aparece, sob a forma de uma monarquia unificada, inicialmente, e, posteriormente, sob a forma de dois reinos nos quais a relativa unidade social da sociedade primitiva se fragmenta. Há conflitos sociais e há setores que empobrecem e outros que enriquecem. Uma parte razoável dos pequenos camponeses tende a perder suas propriedades e se tornar ora jornaleiros (trabalhadores assalariados), ora escravos por dívidas.

Isso é conhecido na história clássica em Atenas e em Roma. Os conflitos sociais gerados não são poucos em ambos os casos. Assim como Sólon teve de legislar e agir em prol dos atenienses escravizados ou a revolta da Plebs romana que quase gerou o abandono da Urbs pelos plebeus em meados do séc. V a.C., aqui as tensões geraram protestos e movimentos. Os profetas são, ao mesmo tempo, críticos da perda de valores religiosos e morais e da injustiça social, pois ambas são duas faces de um pacto estabelecido por Deus, com o povo de Israel. Seguir a Deus e ao pacto estabelecido implica adotar o estrito monoteísmo ético.

6. A profecia clássica e a injustiça social

A profecia clássica externa algumas das críticas a transformação da sociedade e ao abandono pelo Estado dos valores e tradições da sociedade hebraica. Criticar a idolatria se torna, por vezes, criticar o Estado, pois o culto de deuses estrangeiros era, invariavelmente, parte de acordos políticos com potências estrangeiras, tal com a Assíria.

Assim os profetas não só estão se atendo aos pactos e a tradição monoteísta e antiidolátrica, mas também criticando as políticas públicas. Isso significa, muitas vezes, uma forma de oposição à monarquia e aos grupos dominantes.

Criticar a escravização por dívidas, o confisco de terras como pagamento de empréstimos não saldados pelos camponeses, se configura como um problema mais complexo que o simples acerto de contas. Do lado dos comerciantes e dos latifundiários seria a legítima maneira de saldar as dívidas através da obtenção do penhor: o campo, a casa, a liberdade de filhos, esposa e do próprio camponês.

Uma concepção nova de sociedade se instalava e nela os hebreus agiam tal qual outros povos. Esse era um procedimento aceito e levado a cabo pela elite. Os Profetas e escribas deixaram um conceito diferente no texto bíblico, qual seja, não ser semelhante aos demais povos que idolatravam e atuavam de maneira perversa.
Ser um povo separado ou diferente fica imbricado com o conceito de um povo santo: o vocábulo KDSH (Kuf-Dalet-Shin) serve para vários usos, e possui alguns significados. entre eles o de santificar e de separar. A expressão está formulada no Código da Santidade, em Levítico. Separar e santificar se mistura num só conceito. Portanto, deixar de agir diferentemente de outros povos é romper com o pacto e deixar de ser um “povo santo”.

A visão profética que pretende estar embasada na Revelação Divina, entregue a Moisés, ou seja, na pré-condição para o pacto ou para os diversos pactos que se sucederam, entende que há que se “voltar atrás” e se manter a sociedade, nos patamares e na realidade anterior a monarquia.

Projeta-se, assim, uma idealização do futuro, inspirada no passado. Desse modo, delineia-se uma visão de mundo, que tende a ser conservadora ao propor a volta a valores de justiça e de igualdade vigentes antes da monarquia, ao mesmo tempo permeada por idéias avançadas de sociedade. A posse da terra deve ser restaurada e a liberdade humana deve ser re-estabelecida. Não há duvida de que se trata de uma idealização de caráter escatológica e messiânica. A prática não se consolida no momento presente, mas permite a aplicação parcial de leis e de regras que direcionam a sociedade para um patamar de justiça social mais elevado.

7. A questão da escravidão

Consideramos que o Pentateuco, possa ter sido complementado pelos profetas do período do Primeiro Templo, tais como Jeremias e editado pelos escribas desse período e do momento inicial do Período do Segundo Templo, liderados por Esdras (Ezra), o escriba.

Igualmente achamos que a realidade social se altera no período dos Reis e gera uma posição desfavorável aos pequenos camponeses que seriam o esteio da sociedade no período da conquista de Josué e dos Juízes. Assim sendo, poderíamos diferenciar o grau de preocupação da Lei, distinto ao tratar os escravos hebreus e os escravos estrangeiros. Analisaremos inicialmente o grupo de leis que se dedica ao tema da escravidão de hebreus, seja por dívidas, seja por guerras.

A vontade divina definida pelos escribas e pelos profetas é bastante incisiva: Deus libertou o povo de Israel e o levou a Terra Prometida, para ser livre. Contudo, a Lei mosaica mantém relação com a realidade e, por isso, admite a escravização, mas tende a atenuá-la, com diversas regras e condições. Essa será a norma vigente na sociedade hebraica e judaica.

A Lei inserida em Deuteronômio é atribuída, pela tradição, a Moisés, mas a crítica bíblica admite a sua elaboração, por Jeremias e escribas no período final da monarquia, em Judá, por voltas do final do século sétimo antes da era Comum.

Há certo consenso de que o rei Josias tenha colaborado com essa reforma religiosa, inscrita em Deuteronômio, para atribuí-la a Moisés e a Deus. Na nossa compreensão, o quinto livro do Pentateuco ou Torá, é diferente dos quatro primeiros. Traz respostas para uma sociedade mais complexa e elabora soluções para problemas que não existiam no período nômade. Ainda assim, trata de ser realista: não se permite fazer uma revolução social; centraliza o culto em Jerusalém; tenta restabelecer as condições de vida dos pequenos camponeses e ordenar a sociedade. Mas é, apesar disso, moderado nas suas ações práticas: não havia poder que pudesse executar uma nova partilha das terras, por exemplo.

Diversas dessas leis espelham uma preocupação com a questão da escravidão, em especial com o hebreu que se torna cativo por dívidas. Uma delas seria a do ano sabático. Um escravo por dívidas tem um tempo máximo de servidão. Um trecho de Deuteronômio deixa essa questão delineada numa regra básica: um escravo hebreu não poderia servir mais do que seis anos, por causa de dívidas. O senhor ainda deveria lhe conceder um ajuda quando o alforriasse. E a justificativa se inseria na “memória coletiva” da escravidão do Egito e na libertação dos hebreus por Deus. (Dt 15:12-15)

A prática dessa norma não deve ter sido executada com facilidade e sem conflito. Os latifundiários devem ter resistido e se oposto, mas isso apenas demonstra a contradição social existente. O contexto se extinguirá, mas a norma e o princípio aqui exalado permanecerão na lei judaica e na ideologia do período talmúdico e posterior.

Outra questão a se destacar seria a do escravo que não quisesse sair da casa do senhor e obter de novo sua liberdade. Este seria marcado com um furo na orelha feito junto à porta da casa de seu senhor, simbolizando sua integração a casa deste. (Dt 15:17)11

A escravidão entre os hebreus, no caso do escravo ser membro do povo, era temporária. Não se sabe se o mesmo se daria em relação ao escravo de guerra. As normas mais moderadas não estão claramente delineadas a favor do escravo estrangeiro.

De uma maneira geral, a lei é mais favorável ao escravo do que em quase todas as legislações do mundo oriental, e do mundo greco-romano. O escravo não tem direitos plenos, mas possui alguns direitos que o protegem de abusos. Tal como nas demais legislações do mundo antigo, permanece sem dúvida a noção de escravo-mercadoria impregnada na essência da escravidão.

Isso não impede que o escravo possa ser libertado se o senhor lhe furar um olho, ou mutila-lo, ou maltratá-lo. Além disso, ao escravo fugitivo é dado o direito de refúgio: “Não entregarás a seu senhor o servo que se acolher a ti de seu senhor. Contigo ficará, no meio de ti [...] não o oprimirás”. (Dt 23:15)12

A escrava concubina pode ser obtida numa cidade conquistada e usada pelo conquistador, em sua casa. A lei, porém a protege de ser tornada mercadoria após “uso”. Se o senhor que a desposa a rejeitar, deve libertá-la, pois foi, mesmo que temporariamente, sua esposa. (Dt 21:10-14)13

A escravidão de hebreus tem, também, o seu reverso. Se um ou mais hebreus cair cativo de outros povos e houver notícia dele(s), torna-se dever do corpo social prover fundos para o resgate dos cativos, denominado Pedion Shevuim. Essa norma é muito realçada nesse período e segue sendo através da História. Sábios a analisam em escritos na Lei Oral ou em seus comentários, através do medievo e da era moderna.

8. Idealização e realidade

Os Profetas são impotentes para gerar a transformação moral e religiosa que almejam em toda a sua plenitude. A monarquia segue em seus acordos e em suas políticas de aliança com o Egito, negando atenção às advertências dos profetas. As reformas obtidas por Jeremias e os escribas não alteram a essência da crise.

Há uma indiferença generalizada da elite em face da pobreza e da miséria, um total desapego aos valores sociais que deveriam ser parte do Pacto. Muitos são os Profetas que advertem que os sacrifícios a Deus não teriam validade se fossem feitos sem ação social em prol dos desafortunados e abandonados. (Is 1:10)14 Alguns profetas são perseguidos e hostilizados.

A seqüência dos fatos endossa a profecia. O reino é invadido e a cidade de Jerusalém é tomada e destruída. O Templo é queimado. Sucede-se um período de cerca de cinqüenta anos, em que parte importante do povo é deslocada, contra a vontade, à Mesopotâmia, no denominado Cativeiro da Babilônia (586-536 a.E.C.). Esse contexto valida as advertências dos Profetas e cria um senso coletivo de responsabilidade e de culpa. Uma outra chance aparece e cria-se uma nova sociedade em torno de Jerusalém e do Templo. Submetidos ao Império persa e, mais tarde, às monarquias helenísticas, recebe de ambas, a autonomia e a jurisdição interna.

A memória endossa o Pacto como a única saída para a continuidade do grupo. Para tanto, deve se redigir, ensinar e entender a Lei de maneira coletiva, e se tornar um povo santo. A sociedade se organiza nesse sentido, pelo menos no âmbito social e religioso.

A escravidão de estrangeiros se torna um elemento insignificante nesse período. Sendo dominados por povos mais poderosos, não efetuarão prisioneiros de guerra. O problema maior seria o de hebreus empobrecidos, que se tornaram cativos por dívidas ou por resultado de guerras ou revoltas (como sob Roma).

A sociedade entra num ciclo de atuação cotidiana definida pela Lei e uma pressão social intensa sobre os que não agissem de maneira justa e coerente com o próximo. O tratamento dos escravos entre os judeus, tanto sendo judeus quanto estrangeiros, será o mais brando de todos os povos e sociedades do período. A prática da Lei inibe excessos contra escravos e gera uma relativa estabilidade entre os menos afortunados, visto a criação de mecanismos de ajuda mútua ou caridade.

Isso mudará nos séculos seguintes, quando o Cristianismo assumir a condição de religião associada ao estado imperial romano. O problema dos escravos se tornará complicado no final do mundo antigo e no início do medievo quando o Império, aliado a Igreja, executa uma política de proibição do porte de escravos por judeus e define leis restritivas aos judeus.15

Considerações finais

O conceito de libertação dos escravos tem sua inserção nos ideais judaicos definidos pelos profetas e pelos escribas. Sua idealização é projetada em tempos diferentes e sua aplicação tem um sentido que se definirá junto com a História humana.

No Jardim de Éden o Homem era livre e tinha a seu dispor as melhores condições para trabalhar. Um pomar e rios que o regavam. Uma sociedade idealizada no contexto do mundo oriental que possuía desertos de um lado e vales de grandes rios, aonde o trabalho forçado era a única maneira de se estabelecer uma civilização. O sonho idílico não era “não trabalhar”, mas exercer sua labuta em condições ideais e nas quais, o trabalho fosse prazeroso.

Na sociedade bíblica, as tensões sociais colocavam em choque de um lado a tradicional classe dos pequenos camponeses, fundadores da sociedade dos hebreus e os interesses dos latifundiários que só queriam aumentar o número de escravos e o tamanho de suas posses. Esse grupo social teria sido vencedor por ter mais riquezas e proximidade com o poder. O contexto histórico levou a ruína da monarquia e de seus aliados, permitindo que os profetas e os escribas provassem a veracidade de suas críticas e o teor das ameaças de suas profecias se mostrou real e consistente. Isso endossou de maneira definitiva uma lição divina e uma concepção teleológica: o povo eleito deveria seguir agindo como o portador da Revelação e como tal ser fiel a Deus, negar a idolatria e agir dentro das normas do monoteísmo ético. Os sábios e os escribas que sucederam os profetas tiveram a capacidade de mesclar o ideal libertador do passado, executado por Deus através de Moisés, no Êxodo com o sonho milenarista de um tempo messiânico. Tudo isso sem causar uma comoção social aguda e nem gerar algo que se assemelharia a uma revolução.

No contexto da realidade presente, foram pragmáticos e contemporizadores ao extremo: não adotaram uma postura de oposição absoluta ao escravismo, mas optaram por criar uma legislação que dava direitos excepcionais aos escravos, sem abolir a escravidão. A classe dominante, o governo e o sistema econômico se conformaram a essa proposta que poderia ser vista como moderada e conciliadora. Assim, a legislação bíblica servirá de marco de humanização e minoração das condições escravistas, mas não oferecerá um referencial de plena oposição a submissão de escravos e servos a trabalhos forçados. Isso, no que concerne ao texto bíblico, ficará para ser executado no final dos Tempos, com ajuda divina e como um ideal social-religioso de um mundo do porvir.

***
* Sergio Alberto Feldman é Graduado em História Geral pela Universidade de Tel Aviv, Israel, Mestre em História Social pela USP e Doutor em História pela Universidade Federal do Paraná. É, atualmente, professor Adjunto de História Antiga e Medieval junto ao Departamento de História e do Mestrado em História das Relações Políticas da Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória.

Notas

1 KEELER, Werner. E a Bíblia tinha razão. São Paulo: Melhoramentos, 19[...] há cerca de duas dezenas de edições em datas diferentes, um best seller bíblico; FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão São Paulo: A Girafa, 2003. O primeiro tem o intuito de construir a relação entre a verdade do texto bíblico e os achados arqueológicos da primeira metade do séc. XX, adaptando a realidade dos achados e o texto bíblico, num todo coerente. O segundo é uma desconstrução desta concepção, mostrando que a autoria de grande parte do texto bíblico serve aos intuitos dinásticos dos descendentes da Casa de David, em especial Ezequias e Josias.
2 Utilizaremos três edições da tradução da Bíblia. A primeira é a de ALMEIDA, João Ferreira. A Bíblia Sagrada Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica, 1981, que possui dezenas de edições, sendo algumas em linguagem tradicional e outras em linguagem popular. A segunda é a tradução judaica do Pentateuco de MELAMED, Meir Matzliah A Lei de Moisés 5. ed. , São Paulo: Ohel Yaacov, 1989. A terceira é a edição poliglota da Bíblia, editada pela Sociedade Bíblica do Brasil sob o título: Antigo Testamento poliglota: hebraico, grego, português, inglês. São Paulo: Vida Nova: Sociedade Bíblica do Brasil, 2003.
3 Na interpretação judaica não ocorre algo como o Pecado original, na interpretação cristã. Mas se entende que a queda do Homem, exige deste uma ação de transformação e define a necessidade da ação humana para a Redenção. Os autores judeus debatem esta questão e uma das análises contemporâneas é de ROSENZWEIG, Franz, na Estrela da Redenção. V. LÖWY, Michael Redenção e utopia: o judaísmo libertário na Europa central. São Paulo: Cia. das Letras, 1989, p. 55-57. Assim inserem a tradição e o messianismo em movimentos de fundo romântico, mas ao mesmo tempo libertários. Ao Homem cabe transformar o mundo e executar a Redenção.
4 Sendo o Oriente Médio uma região desértica, entende-se que os trechos bíblicos sobre água e deserto sejam inúmeros. Um destes é o trecho de Isaías, c. 41, v.18, que fala da transformação do deserto em terra fértil, com o afluxo de águas enviadas por Deus, uma profecia messiânica.
5 Trecho que é adicionado a santificação ritual,do Shabat, feita através do vinho, na noite de sexta feira, já que após a consecução da obra divina, viria o dia de descanso.
6 Devemos salientar que há duas versões do quarto mandamento. Uma no livro do Êxodo, no capítulo 20 e outra no Deuteronômio, no cap. 5. Diferem no texto e no sentido que definem para celebrar o sétimo dia. Adiante analisaremos a versão deuteronômica.
7 Tradicionalmente, os Salmos são atribuídos a David, mas entre grande parte dos estudiosos se admite que há uma diversidade de autores.
8 Coletânea que traz trechos de Judaísmo, retirados da Enciclopédia Judaica hebraica, traduzidos ao castelhano.
9 Esta alegoria foi introduzida na oração do início do ano judaico, no Machzor (livro de orações do ciclo anual, neste caso das Grandes Festas do início do ano judaico).
10 Erich FROMMé um pensador relacionado com a escola de Frankfurt e que dialoga com a Psicanálise,a Filosofia e a Teologia. Esta obra faz uma releitura radical do texto bíblico, mostrando uma análise bem distinta daquelas exercidas pelo atual fundamentalismo ocidental e oriental.
11 Trecho diz: “[...] e lhe furarás a orelha, à porta, e teu servo será para sempre [...]”.
12 Lei inserida próxima ao código da guerra (c. 20) e demais leis de avançado teor social. Reflete uma noção que se contradiz com a realidade de uma sociedade escravocrata, mas combina com o conceito de cidades refúgio (c. 19).
13 O texto permite sua captura e sua inserção na casa, mas exige que lhe seja dado outro direito: o de chorar pelos seus parentes mortos na tomada da cidade ou na batalha.
14 Adverte que sacrifícios não bastarão para salva-los e que deveriam atuar de acordo ao Pacto preocupando-se com questão social.
15 FELDMAN, Sergio Alberto. Judeus, escravos e proselitismo na Espanha visigótica. História: Questões e Debates. Curitiba: UFPR, v.37, p.145 - 157, 2002; Id., De cives romani a nefariam sectam: a posição jurídica dos judeus no Codex Theodosianus. Revista da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica. Curitiba: SBPH, v.21, p. 7 - 16, 2001. Em ambos analisamos a problemática dos judeus como senhores ou como mercadores de escravos. Nos dois períodos a Igreja aliada com o Império ou com a monarquia visigótica impede os judeus d ter escravos. Receia que estes façam o proselitismo e circuncidem seus escravos. A nossa hipótese é que havia um atrativo para se converter: os escravos ao se tornarem judeus se beneficiariam da lei e seriam libertos no sétimo ano. A Igreja receia que isto aumente as fileiras de sua concorrente, a sinagoga.

Referências

AGOSTINHO. A cidade de Deus. Trad. Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1995.
AGOSTINHO. A cidade de Deus. São Paulo: Petrópolis: Vozes, 1990.
FELDMAN, Sergio Alberto. A Igreja e a "questão judaica": de Eusébio de Cesaréia a Gregório Magno. Boletim do CPA., v.17, p.131 - 154, 2004.
FELDMAN, Sergio Alberto. O projeto isidoriano: um currículo educacional numa era de transição. IN: FRANCO, Sebastião Pimentel. História e educação: em busca da interdisciplinaridade. Vitória: EDUFES; PPGHIS, 2006. (Coleção Rumos da História)
FELDMAN, Sergio Alberto. Isidoro de Sevilha e a desmontagem do Judaísmo In: Relações de poder, educação e cultura na Antiguidade e Idade Média. Santana do Parnaíba: Solis, 2005 a, v.1, p. 341-352.
FELDMAN, Sergio Alberto. Agostinho de Hipona: a necessidade dos judeus na finalidade cristã da História. In: SOUBBOTNIK, Michael & SOUBBOTNIK, Olga Maria M. C. de Souza. Enlaces: Psicanálise e conexões. Vitória: GM Gráfica e Editora, 2008.
FLANNERY, Edward. A angústia dos judeus: história do anti-semitismo. Trad. Olga Biar Laino. São Paulo: Ibrasa, 1968.
FONTETTE, François de. História do anti-semitismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989.
ISIDORO DE SEVILHA. De fide catholica ex veteri et novo testamento contra judaeos. IN: MIGNE (Ed.) Patrologia Latina, t. 83, p. 449-538.
ISIDORO DE SEVILHA Los tres libros de las Sentencias (Sententiarum libri tres). IN: Santos padres españoles II: San Leandro, San Isidoro, San Fructuoso. Introducciones, versión y notas de J. Campos Ruiz & I. Roca Melia. Madrid: BAC, 1971.
PARKES, James. The conflict of the Church and the Synagogue: a study in the origins of anti-Semitism. New York: Hermon, 1974.
PINSKY, Jaime. 100 textos de História Antiga. São Paulo: Perspectiva, 1991.
POLIAKOV, Léon. De Cristo aos judeus da corte. Trad. Jair Korn e Jacó Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1979.
ROTH, Cecil. Pequena história do povo judeu. São Paulo: Fundação Fritz Pinkuss CIP, 1963.
ROTH, Norman. Jews, Visigoths, and Muslins in medieval Spain: cooperation and conflict. Leiden; New York; Koln: Brill, 1994.
SELTZER, Robert M. Povo judeu, pensamento judaico. Rio de Janeiro: A Koogan, 1990. 2.v.
SILVA, Gilvan Ventura da. As relações de sociabilidade entre judeus e cristãos em Antioquia. In: Líber Intelectus. V. 2, n. 2, Dez. 2007, p. 2-15.