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M.Div
Ph.D Teologia
Psicanalista Clinico (estag)
Escritor - 21 livros publicados
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quinta-feira, fevereiro 16

O IMANENTISMO E AS NECESSIDADES HUMANAS

O Imanentismo

1. O Imanentismo atual, a Igreja ‘que serve’ e o círculo fechado das necessidades dos mortais

A Teologia Moral estuda a ação humana segundo a Revelação do Criador em Jesus de Nazaré. Qual é a especificidade do agir cristão? Esta é uma questão fundamental que a Teologia Moral deve responder. Podemos, para chegar a essa resposta, tentar responder a uma outra questão: qual é a especificidade do agir humano livre e racional? Veremos logo que a especificidade do agir humano livre e racional – o agir que interessa à filosofia moral – é agir em vista de um fim articulado racionalmente com a ação por meio de uma idéia.
Se perguntarmos sobre a ação humana em um terreno específico de atividade que é a atividade religiosa, podemos perguntar: por que as pessoas vão à Igreja? Para obter consolações, paz, alívio para o ‘stress’, curas, sucesso, bênçãos etc. Podemos ver que todas essas metas correspondem a necessidades sentidas de uma ou outra forma. O fim que se busca, até no campo religioso é a resposta a necessidades sentidas, a satisfação das necessidades, e o ser humano vai sempre agindo pressionado por uma carência que parece não ter fim. Não só agindo, mas pensando e vivendo num universo que tende para o utilitarismo, para o pragmatismo. Neste caso, as coisas só têm sentido se ‘servem’ à satisfação de uma necessidade percebida. Todo o resto tende a ser desprezado e ignorado, totalmente desvalorizado. Deve-se observar ainda, que as necessidades são percebidas, em boa parte, no nível do relacionamento humano, na comparação entre as pessoas e o que elas têm. Se alguém tem algo mais prático do que o que eu tenho, o que o outro tem passa a ser uma necessidade para mim, mesmo que eu me tenha servido do meu meio até aqui com muito bom proveito.
As necessidades percebidas como reclamando solução imediata são necessidades ligadas à garantia da estabilidade do desfrute da vida humana: conservação do corpo, segurança financeira, aceitação social da pessoa etc. podemos lembrar o prólogo do Evangelho segundo São João:
4Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens. 5A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. 9[O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem. 10Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. 11Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1,4-5.9-11).
Vemos aqui um desencontro de dois que caminham, um na direção do outro. O homem, nas suas trevas, busca a luz, ameaçado, busca satisfazer as necessidades que sente em vista de garantir a sua vida (v. 4). A Luz, que criou o mundo, e é, também, a Vida, vem ao encontro do homem, mas este, que busca a vida, não A acolhe. Por que não A acolhe?
Para responder a essa pergunta precisamos perceber que a criatura humana tem sede de vida (por isso quer satisfazer suas necessidades) mas coloca a sua busca de vida no nível inferior desta vida mortal. Todos os sonhos humanos são o de tornar esta vida mortal melhor, mas não ousando sair do círculo fechado da mortalidade.
O Verbo, que se fez carne, nosso Senhor Jesus Cristo, trouxe a Vida, Vida real, que não se situa nos limites da mortalidade, mas a supera, e nisso revela a natureza de Deus, que é o Vivente. Deus é Amor que Se doa, relação de Pessoas que vivem para as outras e não para Si mesmas. A vida de Deus na carne humana faz da mortalidade o sinal do amor que se doa e, por isso, sacrifica a sensação de desfrute da vida mortal (que é sempre passageira) em vista de divinizar a vida humana e alcançar a VIDA, no nível superior que é a imortalidade. Não querendo o homem sacrificar a sua sensação de desfrute da vida mortal, a oferta que Deus faz não é aceita pelo homem, pela humanidade como um bloco, mas pode ser aceita por cada pessoa humana em sua liberdade.
“Mas aos que O receberam deu-lhes a capacidade de se tornarem Filhos de Deus” (Jo 1,12). Tal aceitação exige a renúncia ao desfrute da vida mortal como meta de felicidade. Tal renúncia é, ao mesmo tempo, a libertação do homem da necessidade, da obrigatoriedade de satisfazer às necessidades sentidas.
No nível das necessidades, os anseios do homem tendem a levá-lo a fechar-se em si mesmo, a guardar para si, o que leva à não-comunicação com o outro. O homem sente necessidade de comunicar-se, pois isso faz parte de sua natureza, mas essa comunicação lhe custa, é difícil, ameaça o seu desejo de desfrutar a vida mortal e a sua sensação de estabilidade. O acolhimento do Verbo que Se fez carne faz prevalecer a comunicação e sacrifica a estabilidade e o desejo de desfrute.
A humanidade, porém, em suas trevas, não só rejeita o Verbo, não só não recebe o Verbo, mas tenta fazer o Seu Nome servir aos objetivos humanos de mais vida no nível da mortalidade. Os ídolos dos pagãos e as falsas imagens do Deus dos cristãos sempre estão a serviço desses objetivos ao nível da mortalidade. Por isso os judeus querem um messias que seja um vitorioso político e militar e pedem milagres sempre dentro do nível da mortalidade. Até as ‘ressurreições’ de Lázaro, da filha de Jairo e do filho da viúva de Naim, são no nível da mortalidade, pois são reanimações para esta vida mortal. Os gregos querem sabedoria eficaz ao nível da vida terrena mortal. A ciência moderna também é a panacéia, sempre encontrando soluções dentro do nível da vida mortal, da satisfação das necessidades terrenas dos homens. Todos, judeus, gregos e modernos, querem um messias que sirva aos objetivos deles mesmos. Um messias ‘útil’ ao nível da sabedoria mortal. Jesus, porém, não aceita pressões, se ausenta quando querem fazê-Lo rei (cf. Jo 6, 15) e não se deixa manipular. “Nós pregamos Cristo Crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas que é sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1,17-25).
A clareza desses conceitos nem sempre está presente na consciência dos cristãos, membros de Jesus Cristo, Jesus Cristo presente realmente no hoje da história. Um dos sinais ou meios pelos quais nos é possível viver a auto-doação divina é justamente a caridade e a compaixão para com o próximo em suas necessidades. “Quem tem duas túnicas dê uma a quem não tem e quem tiver comida faça o mesmo” (cf. Lc 3,11). É um dos sinais mais concretos e compreensíveis pelos homens em suas trevas, fechados em suas carências e necessidades. Para o cristão esclarecido, a doação de sua vida – ao doar coisas deve estar doando a si mesmo (cf. Lc 21,2-4) – no nível das necessidades da vida mortal é um sacramento da vida divina onde será como Deus, uma kenose permanente de Amor.
O mundo moderno, marcado por grandes conquistas no nível das respostas às necessidades humanas (tecnologia moderna em todos os âmbitos de atividade), através da ciência e da tecnologia, passa a prezar cada vez mais a eficiência e a utilidade prática, sempre dentro do nível da necessidade. Tudo deve servir no nível da satisfação das necessidades humanas. Os cristãos querem, por sua vez, anunciar e testemunhar o Amor de Deus, e o canal é a sua caridade, o seu sacrifício de suas próprias necessidades, o que lhes permite suprir a muitas necessidades dos pobres e dos deserdados. O terreno fica, assim, preparado. O mundo vai cobrar que a Igreja seja ‘útil’. Vem, por exemplo, o marxismo, proclamando que a religião, ao apontar para uma vida eterna, que se alcança com o recalque das satisfações desta vida, está servindo à injustiça, à dominação e à exploração dos pobres. Muitos cristãos, perdendo a consciência da transcendência do Reino de Deus e da motivação cristã deixar-se-ão cooptar por esta crítica e com certo complexo de inferioridade – como que colocando a carapuça que o marxista lhe apresenta – passarão a militar no nível político e social sem perspectiva transcendente, nível das necessidades e da luta contra a morte corporal, inevitável, proclamarão que estão “construindo o Reino de Deus”, a verdadeira proclamação do Reino de Deus será sempre mais relativizada e incompreendida e o serviço da caridade ao próximo mudará de sentido.
a) Na lógica evangélica é muito menos importante o que recebe o auxílio para uma necessidade do que aquele que dá. O que recebe o auxílio recebe sempre um dom finito, no nível da vida mortal. O que dá torna-se membro divino, pelo qual o Criador age e, por isso, ‘participa’ do Criador, está em comunhão com Ele. O centro é Jesus, que dá, cura etc. e não os doentes e sofredores que imploram. Da mesma forma, no agir cristão, o centro é o agente, não o receptor. Não se busca, em primeiro lugar satisfazer necessidades, mas divinizar pessoas humanas. Se as necessidades são atendidas por um esquema racional de produção e distribuição de bens, mas não há auto-doação, não há um agir especificamente cristão. A ação cristã distingue-se da eficiência humana (cf. Lc 12,41-44). Na perspectiva das necessidades humanas que estamos examinando, ao invés de ser uma expressão do sujeito que o pratica com a renúncia de si mesmo e, assim, anuncia o Reino dos Céus, o ato de caridade tem a sua expressão no receptor que, tendo suas necessidades mortais satisfeitas, torna-se, para o homem fechado no imanente, sinal de esperança de um mundo futuro no qual todas as necessidades mortais serão satisfeitas, mundo esse identificado erroneamente com o Reino de Deus, que passa a ser “deste mundo” (cf. Jo 18,36).
b) a caridade como serviço de um ou mais sujeitos a um ou mais receptores será identificada com um paliativo, uma ação localizada e pequena, incapaz de realizar uma grande transformação que nos aproxime do ideal do mundo em que todas as necessidades serão satisfeitas. Almejar-se-á, por isso, a uma mudança das estruturas do mundo e, portanto, a uma crescente valorização do poder político – que Jesus Cristo rejeitou – como meio “cristão” de apostolado, ou de “construir o Reino de Deus”, concebido como uma realidade humana, fruto de um esforço humano, o que é evidente heresia.
Mas não só o marxismo, com a sua crítica à religião transcendente, conduz a Igreja a caminhos que não são os de Jesus Cristo. Também o capitalismo e o liberalismo, com suas grandes conquistas na área do bem-estar e sua dinâmica interna que gera “ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres” conduz a Igreja no mesmo sentido. Os avanços dos meios de bem-estar se tornam sempre novas necessidades – coisas que antes nem existiam passam a ser indispensáveis – fazendo daqueles que não as desfrutam “pobres cada vez mais pobres”. Isso induz também a uma idealização de um suposto mundo igualitário a ser ‘construído’ como sinal indispensável do Reino de Deus. E a Igreja sente-se omissa, no mesmo complexo de inferioridade já mencionado, se esse suposto mundo igualitário não se torna meta de sua missão.
Vai, então, a Igreja por um caminho que Jesus Cristo rejeitou, o caminho em que a Igreja (ou Jesus Cristo mesmo!) tem que “servir para alguma coisa”, tem que ter uma relevância histórica. É uma grande tentação, já multissecular, do Ocidente cristão.
A Igreja não deve deixar-se julgar pelo mundo (cf. 1Cor 4,3), não precisa ‘servir’ para nada, segundo o julgamento do mundo. Assim como a dignidade de uma pessoa humana não depende de ela ‘servir’ para algo, mas de sua própria natureza, a importância da Igreja vem do Alto e não da consideração dos homens, ainda mais condicionados pela miséria do seu imanentismo.
(Pode-se aqui referir o encontro de Dom Bosco com o ministro Urbano Ratazzi, que o convida a fundar uma congregação – a Prefeitura de Lourdes, segundo a película ‘A Canção de Bernadete’ – a purificação do Templo, por Jesus).
Qual é, então, a missão da Igreja?
Jesus não mudou, nem mandou mudar, as estruturas da sociedade de seu tempo. Ao menos de forma direta, como etapa da “construção do Reino de Deus”. Mas viveu e morreu de forma irrelevante para a transformação da história, ao menos segundo os padrões da força política direta, de qualquer capacidade de exercer violência e impor a própria vontade. Assim deve ser a Igreja, seu Corpo (cf. Mc 4,26-29). Anúncio da Palavra, distribuição criteriosa dos sacramentos da graça de Deus em vista da libertação de cada pessoa do nível da necessidade mortal para o nível da imortalidade, que possibilitará a ela o dom-de-si. Esta transformação interna das pessoas segundo o Espírito e o exemplo de Jesus Cristo age como um fermento historicamente imperceptível na massa humana trazendo benefícios de diversas ordens, não só econômicos, mas culturais e espirituais, mais possibilidades de haver mais vida humana e menos destruição da espécie humana, benefícios esses que são conseguidos de modo totalmente alheio à atividade política, ou seja, sem nenhuma colaboração e até contra a oposição do poder político. “Buscai antes o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (cf. Mt 6,33; Lc 12,31; Cl 3,1).
Após refletir sobre esses elementos, voltemos à questão original: qual á especificidade do agir cristão?
Respondamos: é um agir não condicionado, em primeiro lugar, por nenhuma necessidade ou carência em vista da capacidade de desfrute da vida mortal, mas um agir motivado pela certeza do dom gratuito desta vida e da vida futura e que transmite, no nível desta vida mortal, a própria vida. A natureza da vida cristã não é da ordem deste mundo fechado nos limites da mortalidade, lutando sempre contra uma morte corporal que é implacável. A vida cristã não consiste em satisfazer carências ao nível da mortalidade mas de viver já neste mundo no nível divino da imortalidade (cf. Cl 3,1-3). Esse nível divino se dá pelo esvaziamento de si mesmo e pela conseqüente auto-doação da pessoa.
“Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!” (1Cor 13,3).
“Recebestes de graça, de graça dai!” (Mt 10,8).
Exercícios:
a) mostrar que as pessoas agem pressionadas por uma necessidade;
b) mostrar os valores da amizade, do sacrifício, do amor gratuito, como os que realizam realmente a pessoa humana; a necessidade do desprendimento de si como oposta à sede de satisfação das outras necessidades;
c) de onde surgem as necessidades: do corpo mortal, alimentação, conforto, etc.; da sociedade, que impõe modelos de comportamento e hábitos; das comparações e do medo de não ser aceito por outrem; necessidades artificiais dos supérfluos da tecnologia moderna.
d) aonde leva o desejo de satisfazer as necessidades; aonde levaria a satisfação plena de todas as necessidades terrenas, se é que é possível;
e) a importância da aceitação de si mesmo;
f) a existência de Deus, a Inteligência criadora, a Causa primeira, a entropia do universo.
Em grande parte a necessidade dos homens decorre de sentirem-se dependentes dos juízos dos outros homens. Os fariseus faziam muitas ações “só para serem vistos pelos homens” (cf. Mt 6,1.5;23,5). É uma necessidade de ser valorizado pelos outros. O dinheiro e o ouro só tem poder porque há quem os valorize. Assim, todo poder humano é uma estrutura de troca de apoios segundo um esquema e quem está no topo, no fundo depende de quem o apóia. Qual é a única instância que tem valor em si mesmo, mesmo que ninguém valorize? Que não depende de nenhuma estrutura de significado criada pela mente humana? A Verdade.

2. A primazia do sujeito da ação em relação ao receptor

Na fé cristã deve-se sempre pensar segundo a ordem seguinte: Tudo é para cada pessoa humana considerada e a pessoa humana é para Deus. Destarte, na ação moral o agente é mais importante, sempre, que o receptor da ação. Isto porque o que Deus quis, ao criar o mundo e o ser humano nele à sua imagem foi apenas fazer com que criaturas racionais, criadas à sua imagem, participassem da sua vida divina, no seio da Santíssima Trindade. Assim, o agente, ao agir segundo a razão e a verdade está exercendo uma capacidade divina, está doando-se na ação moral e, assim, o plano de Deus está se realizando nele, ele está “recebendo de graça e dando de graça”, a vida da Trindade está acontecendo nele. Quanto ao receptor, por melhor que seja a ação do agente, este só pode transmitir elementos de vida mortal, não pode criar no outro a vida imortal. Sua doação é uma graça que o receptor só pode divinizar se, por sua vez ele agir, na medida de seus dons, transmitindo graciosamente o que recebeu. Então a importância da doação só atinge seu ápice quando o receptor se torna agente. Até o próprio Deus, ao derramar a Sua graça sobre o homem, se o homem receptor não a acolhe transmitindo por sua vez a graça, torna infrutífera a graça de Deus. Então o que se faz segundo o Espírito de Deus, a ação moral realmente cristã beneficia sempre mais o agente do que o receptor da ação. Por isso, nas comunidades religiosas é comum encontrar em suas regras que o seu fim primário é a santificação de seus membros e só secundariamente a ação caritativa da comunidade segundo seu carisma.
Em vista de que Deus age? Sempre em vista de criar seres capazes de participar de Sua Vida divina e conduzi-los a essa Vida.
Deus ”o Vivente” e é “o que É” (cf. Ex 3,14). Na sua Unidade é “o que É” – tem em Si mesmo toda a sua consistência metafísica – e na sua Trindade Vive, isto é, é relacionamento de Pessoas que não tem em Si mesmas a sua consistência metafísica, mas sim na relação de dom-de-si – Amor – com as outras.
Deus criou seres à Sua Imagem e Semelhança: os seres humanos e os anjos. À semelhança do Deus Uno tem em si mesmos a sua consistência metafísica, isto é, são. À semelhança das Pessoas divinas são pessoas, isto é, tem em sua natureza a vocação de comunicar-se e entrar em comunhão com outras pessoas. Os outros seres vivos que Deus criou, as plantas e os animais, tem também o ser e se relacionam, vivem por uma relação de vida com o meio ambiente que as alimenta e faz delas também alimento para outros seres. Mas não são pessoas porque não participam conscientemente desse processo, não o vivem segundo a liberdade, e, mesmo realizando todo o desígnio divino a seu respeito, não amam. O ser humano é pessoa porque é capaz de livre relacionamento de vida. A vocação do homem é tornar-se divino na relação unificante com a 2.ª Pessoa Divina. Essa relação unificante se dá pela livre doação das Pessoas Divinas. O Pai Se dá ao Homem dando o Seu Filho, e assim amando o homem. O Filho Se dá, encarnando-Se e entrando na unidade da carne humana (cf. Gn 2,24). Ao não proteger sua vida mortal, mas dá-la completamente no serviço aos outros homens e na Sua Paixão, o Filho vive em relação aos homens a mesma relação de dom-de-si absoluto que caracteriza as Pessoas Divinas, ou seja, derrama sobre a carne humana o Espírito Santo, a 3. ª Pessoa da Trindade. Cada Pessoa, acolhendo esse Espírito, dado por graça, torna-se capaz de superar o movimento de auto-preservação da carne humana e de viver o dom-de-si, o Amor, divino. O Filho estabelece assim entre Ele e os homens a mesma relação unificante que existe entre o Pai e Ele próprio, a unidade do Espírito Santo. Isso constituirá a Igreja, o Corpo do Filho, reunindo na unidade os homens que O acolheram.
Deus criou o homem com um ser próprio, distinto do de Deus, para ele poder aderir a Deus livremente, não por uma natureza já divina, como as Pessoas Divinas, o Filho, gerado eternamente do Pai e o Espírito Santo que procede do Pai e do Filho. O homem não é divino porque a sua substância não é a substância única do Deus Uno. É outro ser. Mas é pessoa, para entrar livremente no relacionamento divino. Para entrar no relacionamento divino devem esvaziar-se de si (cf. Fl 2,7) aniquilando o seu ser e afirmando a sua personalidade, a sua relacionalidade, para unificarem o seu ser como o Ser Único de Deus e participarem da comunhão divina, pela participação-comunhão na Pessoa do Filho. Este é o culto em espírito e verdade (cf. Jo 4,20-24; Rm 12,1): aniquilar seu ser mortal para entrar na comunhão do Ser Único de Deus, na comunhão da vida do Pai, pelo Filho, na unidade do Espírito Santo.
Esta foi a missão de Jesus Cristo, que assumiu a nossa natureza mortal para redimir-nos. Aniquilou-Se, fez-Se oferenda para o Pai, na sua humanidade, no Seu Corpo, divinizando-O. Quem com Ele se aniquila torna-se membro do seu Corpo, participa da Sua relação divina com o Pai no Espírito Santo, isto é, se torna santo. A Igreja é o Corpo de Cristo. Por isso, a Igreja é chamada a aniquilar-se também e desse modo divinizar-se. É desse nível a missão da Igreja.
Os homens, criados no ser, para viver plena e eternamente, mas mortais, lutam contra a morte corporal, o que os retém na vida mortal que quereriam eterna; por isso resistem a aniquilar-se na relação de amor-dom-de-si. Querem buscar a afirmação do seu ser na conservação de sua vida mortal e isto os coloca como carentes de uma série de necessidades sentidas: justiça humana, vitória sobre as doenças e a fome etc. que são buscadas como suportes, em si mesmas da vida humana. No nível das necessidades o acento é colocado no efeito da ação e no receptor da ação e não no agente. A pergunta é: para que serve?
A intenção de Deus visa sempre a santificação do agente, isto é, por meio de seus atos a pessoa se aniquila, se oferece, se une a Deus.
A tentação da Igreja é, portanto, querer servir aos objetivos imanentes dos homens, que não são os fins transcendentes de Deus. É querer ser historicamente relevante, na história que os homens escrevem, não percebendo a história de Deus. É colocar o acento no efeito imanente das ações humanas, construir o que é mortal e será destruído pela morte, e não na santificação do agente livre, que permanece para sempre. Assim fazendo a Igreja trai a sua missão; Jesus Cristo só fez a vontade do Pai, e não a do mundo. Afirmou claramente não pertencer a este mundo (cf. Jo 8,23; 17,14.16) e que o seu Reino também não é deste mundo (cf. Jo 18,36).
O mundo criado em função das necessidades da vida mortal é um mundo “virtual”, montado sobre valores criados pelo homem. O dinheiro e o ouro só tem valor porque há quem os valorize. Os títulos de nobreza, de profissão etc. também. Os homens criam uma hierarquia de títulos e poder conforme a capacidade que cada pessoa adquire de satisfazer necessidades suas ou de outrem, segundo o saber, a posse etc., numa palavra, segundo o poder humano que lhe é reconhecido. Esses valores acabam inoculados na pessoa e esta confunde o seu ser com valorações que possui na sociedade, alienando-se da verdade sobre si mesma. Nós somos o que somos diante de Deus, que vê a verdade e é a Verdade. Não somos o que os homens nos consideram presos aos condicionamentos da sua condição mortal e sua sede de satisfazer suas necessidades ‘virtuais’. Por isso Jesus, nos Evangelhos, aconselha a não fazermos as obras “diante dos homens, só para ser vistos por eles”. Há até sacerdotes que prezam muito seus títulos de ‘doutor’… Todo esse mundo dos valores segundo os homens não tem consistência. Jesus Cristo nos diz: “Os chefes das nações as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Entre vós, o que quiser ser grande seja o servo de todos”. Ou seja, todo o poder e capacidade de uma pessoa deve ser atribuído a Deus como graça recebida para ser transmitida servindo ao próximo, e nunca para a própria segurança e importância (necessidade inata de sentir-se forte e valorizado pelo próximo). A verdade de uma pessoa humana é o seu ‘nada’. Nesse ‘nada’ as obras de Deus são atribuídas a Deus, tudo é graça pura d’Ele, as obras, as ações, são d’Ele e a pessoa humana, na sua liberdade, se faz instrumento dessa ação divina de transmitir sua Vida distribuindo graças. Maria santíssima realiza isso perfeitamente. Nela o Senhor fez maravilhas, porque viu o ‘nada’ de sua serva. Por isso ela é a “cheia de graça”.
O mundo virtual da necessidade é onipresente em nossa mente e em torno a nós. Por exemplo, as comunidades religiosas são muito procuradas por pessoas carentes de afeto, de carinho, inseguras. Muitas vezes, para se inserirem, e por sentimentos de caridade natural, tais pessoas mostram muita disposição para o trabalho, o serviço, e por serem assim dedicadas tais pessoas são tidas por exemplares e santas. Na realidade, porém, o que determina muitas dessas pessoas é sempre a sua carência, a sua dependência de afeto e da aceitação humana, que ‘compram’ com o seu serviço. Os que as julgam santas também são condicionados pelas necessidades que os serviços dessas pessoas satisfazem e o alívio que sentem por se verem servidos. Observa-se a pouca independência e carência dessas pessoas e a fragilidade de sua relação com Deus ao se verificar como sofrem não se conformando com perdas, doenças, dores em geral, ingratidão em relação a esses serviços prestados; por isso, às vezes, são consideradas ‘sensíveis’. Na verdade ainda não superaram o nível das necessidades dos mortais para se abrir ao Espírito Santo imortal, que faz superar quaisquer necessidades pela renúncia absoluta a si mesmos. Ainda não são santas, por mais generosas, prestativas e sensíveis que pareçam.
A missão dos sacerdotes é contribuir para que as pessoas vivam a vida na graça de Deus, como a descrevemos acima. Mas também os sacerdotes estão no nível das necessidades e podem cair na tentação de, ao invés de libertar as pessoas para viver a liberdade evangélica da renúncia e superação do nível das necessidades, criarem máquinas eficientes de pessoas que servem e satisfazem necessidades de outras pessoas também buscando, como mostramos, satisfazer as suas, mas que não chegam nunca a realmente superar suas necessidades e viver livres, segundo a Verdade (cf. Jo 8,32). E essa carência e fraqueza é entendida como sendo ‘humana’ e chega-se a não entender a verdadeira liberdade e esvaziamento de si e achar que é utopia e impossível. Ou seja, os homens, buscando satisfazer suas necessidades criam um mundo ‘virtual’ e acusam a verdade de ser utópica, impossível e não existir. Para eles só existe o que é a fantasia humana. A verdadeira missão da Igreja e do padre é considerada impossível, utópica, inútil. As necessidades são tantas e as cobranças levam muitos a pensar que então a Igreja e os padres devem ser ‘úteis’, devem servir segundo as necessidades humanas e cai-se na tentação de passar a criar também o mundo ‘virtual’ das necessidades humanas. O clero passa então a valorizar mais a atividade política ou profissional do que o sacerdócio e perde sua identidade. Alguns abandonam o sacerdócio, outros continuam oficialmente no ministério mas não sabem mais o que é ser sacerdote católico.
Muitos carismas na Igreja passam da liberdade à necessidade. Ao surgir um carisma, pessoas se libertam, aparecem bons frutos, vem o desejo de continuar o carisma para colher frutos continuamente. Isto leva a estabelecer instituições, como uma ordem religiosa, um instituto ou algo assim. A instituição entra no mundo da necessidade, adquirindo, por exemplo, ao longo do tempo um patrimônio, o que faz aparecer sempre mais necessidades. Perde-se a liberdade inicial e a instituição tende a viver para satisfazer as suas necessidades. Surge o clamor de ‘voltar às origens’. Essa ‘volta às origens’ não significa só ‘atualizar’ o fundador, fazer uma re-leitura do fundador no novo contexto histórico em que se encontra, mas exige uma conversão, uma nova passagem da necessidade à liberdade, o que pode implicar a liquidação do patrimônio da instituição em vista da absoluta liberdade do início do carisma. Por que não?
O diálogo de Jesus Cristo com a mulher samaritana junto ao Poço de Jacó, em Sicar, na Samaria, é particularmente esclarecedor do conflito entre o mundo da verdade e da liberdade e o mundo da necessidade (cf. Jo 4,5-38). A cena se desenrola no mundo da necessidade. Os discípulos de Jesus tinham ido comprar alimentos – denunciando uma das necessidades mais básicas, a necessidade paradigmática que, dominando o homem o afasta dos caminhos de Deus. A primeira fala de Jesus adulto no Evangelho é justamente “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4,4; Lc 4,4; Dt 8,3). Jesus está com sede e pede de beber, revelando em sua humanidade o condicionamento humano pela necessidade. Diante da resposta da mulher, fruto das concorrências entre judeus e samaritanos e das dominações do homem sobre a mulher, tudo isso resultado dos condicionamentos que a necessidade deixou na civilização humana, Jesus fala de uma água viva que elimina para sempre a sede, isto é, fala não da satisfação constante da necessidade, perseguida pela ciência humana, mas da superação do nível da necessidade. E diz ainda (v. 14) que quem passa da necessidade para a liberdade torna-se fonte dessa mesma transformação para outros: “a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna”. Isto traz como conseqüências:
a) a pessoa libertada do nível da necessidade é capaz de satisfazer a necessidade de outros com mais facilidade;
b) a pessoa libertada ainda é capaz de libertar outros do nível da necessidade, o que significa que a pessoa que faz apostolado, que é enviada a libertar os outros da escravidão da carne, do nível da necessidade, deve ela mesma estar libertada sob pena do seu apostolado ser só aparente;
c) a liberdade que alguém goza por receber a ‘água viva’ que Jesus lhe deu já é antecipação da vida eterna, e vai crescendo na pessoa, impelindo-a num impulso crescente em direção à comunhão divina e a vida eterna.
A samaritana, sem entender o sentido simbólico da água viva, pede então da água viva para libertar-se do peso da necessidade (v.15). Jesus volta ao tema da necessidade, que é fruto do pecado original (cf. Gn 3,16b) que faz a mulher carente e dominada pelo marido. A mulher é conduzida por Jesus em direção ao mundo da verdade e da liberdade pelo reconhecimento e aceitação da miséria de sua condição. Confessa seus cinco maridos e seu concubinato. Jesus confirma que é verdade que ela não tem marido (v.17). Aquilo que satisfaz nossa necessidade não entra em comunhão conosco. A mulher não tem marido. “Ter marido” é ter uma relação de amor gratuito, livre e verdadeiro, que leva à comunhão de vida (cf. Gn 2, 22-24). A mulher, representando a humanidade inteira, não tem marido, não vive a comunhão divina, porque sua relação é no nível das necessidades mortais, que é voltada para o ‘eu’ e impede o verdadeiro amor-dom-de-si livre. É preciso “falar a verdade” e a primeira verdade é reconhecer que no nível das necessidades mortais não amamos, dele não saímos se não formos socorridos pela graça do que dá a ‘água viva’, que devemos pedir essa libertação a Quem pode nos libertar, nos dar a ‘agua viva’, o Espírito Santo, o novo nascimento do Alto (cf. Jo 3, 3-6).
O relato passa então a considerar a construção humana e a construção divina no âmbito da relação humana com Deus. A samaritana pergunta se é no Monte da Samaria (Garizim) ou no Templo de Jerusalém, no Monte Sião, que se deve adorar Deus. Ambos são santuários construídos pela mão do homem nos quais se oferece sacrifícios, obras humanas que imploram a Deus atender às necessidades mortais dos homens. Jesus rejeita as duas alternativas (v.22) como adoração verdadeira a Deus e proclama uma nova: “Vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade” (Jo 4,23-24). Em Espírito: segundo o Espírito, que liberta o homem da carne, da escravidão das necessidades da vida mortal; em verdade: segundo a ação criadora de Deus que é verdadeira e não segundo o mundo ‘virtual’ que os homens constroem sob escravidão de suas necessidades. Este culto é o mesmo que São Paulo explica em Rm 12,1. Não sendo mais escravo, pelo novo nascimento no Espírito Santo, da necessidade do corpo que luta contra a morte, o corpo é oferecido no serviço ao próximo e o cansaço, a dor e a morte ‘voluntária’ de um é fonte de vida para o outro, realizando a nível dos corpos mortais o mistério de amor-dom-de-si que rege entre as Pessoas Divinas e as unifica numa só Vida.
Os discípulos de Jesus voltam e querem que Jesus coma, ou seja, satisfaça suas necessidades humanas. Jesus fala de um outro alimento que lhe dá Vida, que é seu Pai Celestial. A resposta de amor ao Pai na obediência à sua missão ‘alimenta’ Jesus (v.34). Jesus tem fome dos homens (v.35-38) que quer resgatar para a vida divina, comparados com os trigais que fornecem o alimento da necessidade mortal de que os homens tem fome. Jesus tem sede (cf. Jo 19,28) de homens também. Ele se vai fazer alimento e bebida, dando seu Corpo e seu Sangue (cf. Jo 6), realizando assim o culto em espírito e verdade, o dom-de-si, para que os que “recebem de graça, dêem também, de graça” (cf. Mt 10,8) e vivam a Vida Divina. “Um é o que semeia, outro é o que colhe” (cf. Jo 4,37-38): os discípulos, oferecendo seus corpos na obra divina, formam uma unidade, como se fossem um só agricultor, embora sejam pessoas diversas).

3. O Cristianismo e as Virtudes Humanas

A Vida Moral Cristã não é construída simplesmente numa aquisição de virtudes morais.
O Cristianismo sempre incentivou os que ouviram sua mensagem à aquisição das virtudes morais.
Podemos dizer que a virtude é a capacidade que uma pessoa possui de assumir comportamentos convenientes à consecução de determinado fim. Quando o fim é a coerência interior da pessoa ou a harmonia social a virtude é considerada virtude moral. Por exemplo, a honestidade, a veracidade, a generosidade. Quando o fim é a comunhão com Deus em Si mesmo pela graça, temos as virtudes infusas ou teologais: a Fé, a Esperança e a Caridade. Quando o fim é a perfeição profissional temos as virtudes profissionais: a competência, a laboriosidade, a pontualidade, a assiduidade etc. As virtudes teologais têm uma natureza diversa das virtudes humanas. São geradas no homem a partir da autocomunicação de Deus ao homem e não de um esforço de desenvolvimento da pessoa. Por isso podemos dizer, mesmo se o cristianismo, como dissemos, usou sempre um discurso de virtudes, que a vida cristã em si mesma não se desenvolve como uma aquisição progressiva de virtudes, mas como uma iluminação que a Revelação Divina provoca, fazendo a pessoa reconsiderar a sua pessoa, o mundo, o seu destino, a partir de Deus e aí passa a viver segundo essa que é a realidade verdadeira que conheceu pela Revelação e acolheu pela fé, pela esperança e pela caridade. O caminho da aquisição progressiva das virtudes provém das filosofias grega, oriental etc. e não do cristianismo mesmo. Este absorveu esse caminho, não sem prejuízo de sua compreensão, de sua pureza e natureza original.
Essa assimilação da vida moral brotada da filosofia fez com que o cristianismo aparecesse, para a grande maioria das pessoas como um difícil aperfeiçoamento moral e não como uma iluminação sobre a Verdade, deformando o próprio conceito de fé, que se afastou do acolhimento e conhecimento da Verdade revelada, para se confundir com uma certa confiança em Deus, confundindo-se com o conceito de esperança. Isto também está na origem da atual separação entre fé (sentimentos religiosos) e vida (comportamento moral) e na pouca valorização do conhecimento religioso, concebido secularmente como algo necessário somente para pessoas especiais, ministros ordenados etc. Para que conhecer detalhes sobre a Revelação se a pessoa pode sentir confiança (confundida com a fé) em Deus, mesmo sem conhecê-lo em detalhes? A ignorância religiosa abre espaço também para o sincretismo religioso, pelo uso da linguagem e dos símbolos cristãos para um culto que, em sua lógica interna, é fundamentalmente pagão. (Explicar que o homem decaído pelo pecado original não é nem conhecedor do deus verdadeiro, nem ateu, mas pagão).
Por que o discurso sobre as virtudes cresceu tanto no ensino da fé cristã?
Mesmo que a vida cristã seja, em sua natureza própria, a vida segundo a Verdade revelada, e a visão da Verdade mude o homem, o cristão é um homem encarnado, inserido em seu contexto vital, sua cultura, e sofre diversos condicionamentos que lhe vem desse ambiente onde vive. Certamente foi pela denúncia contra os ambientes moralmente corrompidos que influenciavam os fiéis e a necessidade de fortalecê-los nos bons costumes, unida à natural dificuldade dos convertidos de viver a partir somente do Espírito, que levou a Igreja a acentuar o caminho da aquisição das virtudes morais.
A atual crise moral que abrange as sociedades no mundo inteiro tem sua razão de ser no condicionamento que o ambiente exerce sobre cada pessoa. Mas esse condicionamento tem raízes em transformações profundas que, mudando a civilização, afetaram profundamente a alma humana.
Uma dessas transformações foi o extraordinário progresso tecnológico com o uso de novas energias e a descoberta da origem das doenças com a conseqüente cura, que caracterizou as idades moderna e contemporânea. O ser humano, que era refém da natureza, sentiu-se poderoso sobre ela. A impotência diante da natureza, levava as pessoas a uma busca de recurso no mundo sobrenatural. A descoberta das curas e o domínio de novas energias (vapor, elétrica, combustíveis fósseis) fez diminuir muito o impulso à busca de salvação sobrenatural e aumentou o sentimento de auto-suficiência, ou seja, o orgulho do homem. Enfraquecendo o impulso sobrenatural, atrofiou também o temor de Deus, que era uma das colunas mestras que sustentava o exercício da virtude. O impacto do progresso do domínio sobre a natureza foi tal que as filosofias atéias, que em Demócrito jamais haviam conseguido ser populares, começaram a encontrar acolhimento no meio popular em muitos países, junto com um cientificismo ingênuo.
Outra grande transformação foi a implantação dos meios de comunicação social eletrônicos, o desenvolvimento da imprensa e o surgimento da cultura de massas, provinda, não da alma popular, mas das minorias materialistas e atéias, mas poderosas financeiramente, que controlam esses meios. Criou-se uma cultura sem Deus e foi se perdendo de vista, paulatinamente, as razões que sustentavam o comportamento virtuoso, que, animando a razão humana, levavam o espírito humano a controlar e dominar os impulsos da carne. Os valores morais passaram a ser considerados ‘tabus’ a serem derrubados e foi implantada uma cultura de satisfação dos instintos da carne, na qual a razão tem pouco espaço. Os lemas dessa ‘revolução’ eram, por exemplo, “É proibido proibir”, “Não se reprima” etc.; essa cultura enfraqueceu a vontade das pessoas, tornando-as incapazes de se controlarem a si mesmas, descendo a níveis sub-animalescos de que é sinal a enorme quantidade de dependentes de drogas, com um exorbitante índice de consumo e violência pública em todos os lugares. O homem, orgulhoso de ser senhor da natureza percebeu que não era senhor nem de si mesmo e se tornou incapaz de conviver socialmente em harmonia. Tornou-se um homem sem virtude.
Concomitantemente com essa evolução dos fatos, a cultura tornou-se também performática. O importante passou a ser superar metas, alcançar maiores índices, seja no caso de um atleta que busca estabelecer novo recorde, seja no caso de uma empresa que quer conquistar uma fatia sempre maior do mercado. Esta busca de objetivos e auto-superação leva a pessoa a desenvolver em si determinadas virtudes, submeter-se a uma verdadeira ascese, em vista de aumentar sua capacidade de alcançar tais ‘performances’. Isto mostra que a busca de virtudes não é algo do passado, mas é muito exigida pelo mundo moderno, haja vista, por exemplo, o rigor das exigências que se faz na seleção de candidatos para um emprego. E quanto mais excelente o emprego, maiores virtudes se exige. A busca da excelência e da produtividade nas empresas fez desenvolver ciências como a psicologia do trabalho, as relações humanas no trabalho e fez’ redescobrir, através dessas ciências, que a pessoa humana que trabalha mais e melhor a médio e longo prazos é a que for mais equilibrada emocionalmente, afetivamente etc. Isso levou a redescobrir, embora com objetivos materialistas e não de perfeição humana, muito menos pela glória de Deus Criador, o caráter espiritual da pessoa humana e da verdadeira liderança e ação humanas. Levou a redescobrir que toda pessoa tem uma contribuição a dar – tem dons a partilhar – se se descobre o lugar e a função correta para cada pessoa. Por causa destas descobertas se faz uma releitura das fontes cristãs e, repetimos, embora com objetivos imanentes, não deixam de manifestar a riqueza humana do caminho cristão. Por exemplo, títulos de livros bem vendidos como ‘Jesus, o maior líder que já existiu’, ‘Jesus, o maior psicólogo que já existiu’, ‘O Monge e o Executivo’, procuram em Jesus e na Regra de São Bento uma perfeição humana que possibilitará alcançar as melhores performances hoje. Mesmo para o sucesso terreno é necessária a virtude humana. O vicioso, o não-virtuoso, não está preparado para realizar-se nem neste mundo nem no próximo.
Esta constatação leva-nos, porém, a perceber que toda a grandeza da capacidade humana pode ser canalizada para alcançar metas bem abaixo das verdadeiras metas que, só elas, podem realizar plenamente o homem. “De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a si mesmo?” (Lc 9,25), diz o Senhor.
Dissemos, no início desta reflexão, que a idéia de virtude moral, em si mesma, não é de origem cristã. Pode haver mesmo um discurso moral cristão que a dispense, como os próprios quatro Evangelhos canônicos. Ao final, constatamos que não falta ao homem moderno o apelo à virtude. Há bastante até. O que falta é aquilo que é específico do cristianismo: a primazia da destinação divina da pessoa humana, a sabedoria divina, a afirmação, pela pessoa humana, da Presença e do Reino de Deus. Sem isso, mesmo a virtude moral humana se torna ambígua e hipócrita. Um verdadeiro malandro e vigarista só o é, com sucesso, se reunir em si uma série de virtudes humanas muito apreciadas como a tranqüilidade diante da adversidade, a capacidade de comunicação e persuasão, certa prudência e auto-contrôle, e assim por diante. O que caracteriza o cristão não é exatamente já possuir a perfeição da virtude moral humana, mas a sua meta, que é Deus. O verdadeiro perfil moral da pessoa humana não é tanto a sua perfeição moral humana, mas o rumo que dá à sua vida, o Deus verdadeiro, ou outro deus a que serve.

Dois Axiomas da Moral Cristã

Dois Axiomas da Moral Cristã


A Moral Cristã é a moral que é de acordo com a natureza de Deus e a da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. Baseia-se em dois axiomas:

João 3,27: “João (Batista) lhes deu esta resposta: ‘Uma pessoa não pode receber nada além do que lhe é dado pelo Céu’”.

Mateus 10,8c: “De graça recebestes, de graça daí”.
Tudo é graça, tanto por recebimento como por doação. A própria vida do cristão é uma vida doada.

Destes dois axiomas, baseados nos quatro princípios da Moral Cristã, que já estudamos (tentemos relaciona-los) surgem todas as virtudes do cristão:
a)      ação de graças permanente a Deus
b)      caridade para com o próximo
c)      honestidade
d)      sinceridade, etc.

Estes axiomas plasmam também a liberdade do cristão. Jesus Cristo é o Senhor não porque manda. “Pois qual é o maior: o que está sentado à mesa ou o que serve? Não é aquele que está sentado à mesa? Todavia, eu estou no meio de vós, como aquele que serve” (Lc 22,27). Deus serve, criando e mantendo a sua criação. Jesus é o Senhor porque vive a Verdade. “Perguntou-lhe então Pilatos: És, portanto, rei? Respondeu Jesus: Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz” (Jo 18,37). E a Verdade é que a criatura depende tão somente do seu Criador e nunca de outra criatura. Por isso Jesus Cristo não se apegou a nenhuma criatura e pede a seus discípulos para renunciarem a si mesmos e a todas as coisas. “Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes: Se alguém vem a mim e não se desapega de seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,25-27). “Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Jesus Cristo quer que o único valor absoluto de nossas vidas seja só Deus.
Santa Teresa de Jesus escreveu, baseada nisso: “Nada te perturbe, nada te espante; tudo passa, só Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta!”.
A moral cristã está toda contida na unicidade de Deus e no seu amor. “Achegou-se dele um dos escribas que os ouvira discutir e, vendo que lhes respondera bem, indagou dele: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis aqui o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que estes não existe” (Mc 12,28-31).

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